Em Granada para o “Territorios Digitales”

No dia 30 de junho, apresentei o trabalho Talking walking with online sound map practitioners no I Congresso Internacional “Territorios Digitales- Construyendo unas Ciencias Sociales y Humanidades Digitales”, realizado pelo grupo de pesquisa MediaLab, da Universidade de Granada.

O encontro foi realizado no Palacio de la Madraza (em árabe, ﻣﺩﺭﺴة, “escola”) que funcionou como universidade entre 1349 e 1500, desde sua inauguração pelo rei Yusuf I de Granada, da dinastia muçulmana Nasrida, até a chegada de Gonzalo Jiménez de Cisneros. Este personagem ignorou a política de tolerância acordada na conquista castelhana e acabou saqueando o prédio e queimando sua biblioteca em uma fogueira pública. Chega dói de imaginar. Exímios matemáticos, os árabes foram os principais responsáveis por trazer à nossa era os textos clássicos dos filósofos gregos. Há dez anos, a Madraza passou por uma grande obra de restauro e hoje está aberta novamente a atividades universitárias. E lá fomos nós!

O congresso não só reuniu diversas discussões sobre temas emergentes e consonantes com a pesquisa de doutorado, como o uso de novas tecnologias na abordagem do espaço e arquivos digitais, como também proporcionou contato com pesquisadores muito afinados com a investigação na qual trabalho.

Lucía Binotti apresentou “The Walkable Classroom: Geo-learning“

Foi o caso principalmente de Juan Ruiz Jiménez (I.E.S. Generalife, Granada), que falou sobre Paisajes sonoros históricos: una plataforma digital; Lucía Binotti (University of North Carolina at Chapel Hill), que apresentou The Walkable Classroom: Geo-learning; e Pedro Ordóñez Eslava (Universidad de Granada) , que trouxe o trabalho Sound Education 2.0: nuevos entornos digitales para una educación sonora.

O programa completo está disponível aqui. Vocês vão perceber que o evento pediu, além do resumo, uma espécie de pôster para todas as apresentações, e esse material ficou disponível pelo site e pelo aplicativo para celular. Eles também planejam um livro, na sequência.

Minha colaboração se deu na sessão “Realidade Aumentada, 3D + Análisis geo-espaciales + Digital Cultural Heritage y Digital Cultural Landscape”. Apesar de ter submetido a proposta em inglês (porque a chamada chegou a mim neste idioma), a maior parte dos trabalhos estava em espanhol, motivo pelo qual acabei a proferindo em castelhano. Vou disponibilizar esse material ainda hoje, ou amanhã.

E cadê as gravações?

Realizei poucos registros sonoros em Granada, e a maior parte integrando vídeo, porque passei quase toda a estadia dedicada ao Territorios Digitales. Mas posso relatar algumas coisas bem interessantes: a primeira forte impressão do lugar foi o cheiro doce que senti logo que sai pela porta do avião no aeroporto Federico García Lorca. Estava sentada à primeira fila, então não havia quase ninguém ao redor quando pus os olhos na paisagem andaluz, amarelada pela luz de pouco antes das nove da manhã. Assim, aquele perfume não parecia ser dos outros passageiros.

O cheiro estava lá quando estávamos embarcando no ônibus que nos levaria ao centro da cidade, e lá o cheiro passou de doce a algo mais. Salgado? Não: era um cheiro de tempero, especiarias. De fato, subindo as vielas do bairro de Albayzín, me deparei com banquinhas vendendo uma grande variedade de ervas. Além disso, a cidade está cheia de laranjeiras apinhadas da fruta, como esta no canto superior direito, abaixo.

Dos sons, um dos mais fascinantes que ouvi foi o afiador de facas andaluz. Há afiadores que usam um instrumento de sopro semelhante em Porto Alegre, mas só quando ouvi uma gravação que o Rafael de Oliveira fez desses caras em Portugal é que percebi a inclinação moura da melodia. Me parece que, no Brasil, esse traço um pouco se perde. Mas em Granada essa ancestralidade me soou gritante. O mágico da situação foi que ouvi o silvo límpido do afiador se aproximando pelas ruas estreitas que davam para a Plaza de las Pasiegas, mas quando achei que ele ia aparecer diante de quem tomava café por ali àquela hora, o som cessou. Não pude nem correr para ver, porque não tinha ainda pago minha média.

Plaza de las Pasiegas (Foto: Fermín R.F./CC)

Esta praça é bem encerrada no centro histórico: pequena, é cercada pela grande fachada principal da catedral e pelas faces de edifícios antigos de três andares, o que faz dela uma espécie de caixa de ressonância para os sons que chegam pelas vielas. Perguntei depois ao pessoal da loja da esquina, que vendia e também amolava lâminas (uma das especialidades eram espadas de modelos medievais), se eram eles que saíam perambulando com o serviço. Pois nem eram. A própria moça de lá disse que adoraria ver o autor dos assobios, mas que só sabia que ele passava pelas imediações, em uma bicicleta ou motinha – ela também estava em dúvida. Infelizmente, o anúncio à distância de sua passagem foi tão rápido e arrebatador que escapou à gravação…

Outro som muito especial é o da água que corre pelos jardins e pátios de Alhambra, um complexo fortificado de castelos onde vivia o rei nasrida e a corte do Reino de Granada. É hoje um dos monumentos mais visitados da Espanha, e requer boas horas de caminhada, amenizadas pela contemplação de um impressionante conjunto arquitetônico, rica e minuciosamente decorado pela mais fina arte islâmica. Não deixem de ver o vídeo ao fim desta postagem!

No Pátio dos Leões (abaixo, à direita), canaletas esculpidas no piso de mármore branco trazem água da fonte central até os corredores circundantes. É comum encontrar pelas edificações de Alhambra pequenas cubas encrustadas no chão, com jorros para manter a água em movimento.

A água é um elemento importantíssimo da arquitetura nasrida, funcionando como espelho das e nas edificações, duplicando as formas e refletindo a luz. Além disso, faz parte de ritos religiosos, como as abluções (lavagens). Na tradição islâmica, simboliza abundância, poder, riqueza e eternidade. Para além da força estética, a engenharia nasrida contruiu para Alhambra um dos sistemas hidráulicos mais importantes da Espanha medieval, para abastecimento a partir do rio Darro. (Ah, pardais cantando tornam o entorno mais familiar.)

Por fim, não poderia deixar de mencionar o som dos sapateados flamencos e das zambras moras (que guardam alguma relação com a dança do ventre). São uma projeção muito particular do corpo sobre o espaço, a ponto de deixar marcas no chão dos lugares onde dançarinas e dançarinos se apresentam. As imagens que aparecem no vídeo foram feitas na Cueva de la Rocío, uma tradicional zambra cigana no bairro de Sacromonte. A edição ficou a cargo do algoritmo do celular, que remexeu minhas fotos e vídeos e saiu com essa pecinha, que até que ilustrou bem muita coisa.

[Este traslado teve apoio do Programa de Excelência Acadêmica – PROEX da Capes, via UNISINOS, cujo Programa de Pós-Graduação em Comunicação é avaliado com nota 6 de 7.]

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