Percurso sonoro pela Puerta del Sol

Se me dissessem no começo do ano que ainda em 2017 eu estaria na Espanha em pleno verão boreal, talvez não tivesse dado tanto crédito. O improvável aconteceu. A caminho de Granada, onde apresentei trabalho no I Congresso Internacional “Territorios Digitales” (com o apoio do Programa de Excelência Acadêmica – PROEX da Capes, via UNISINOS), pude passar rapidamente por duas outras cidades onde tive a felicidade de me deparar, inadvertidamente, com o que minhas pesquisas do mestrado já haviam me apresentado remotamente: barquillos e neulas.

Foto: Antonio Delgado (CC)

Nas primeiras horas em Madri, caminhei pelas imediações da praça Puerta del Sol, historicamente um ponto de passagem entre a cidade medieval intramuros e seus arrabaldes, e hoje tida como ponto de onde partem as estradas que ligam a metrópole a outros lugares no território nacional. A apenas uma quadra desta praça tão central, em direção às áreas outrora situadas fora das muralhas, foi onde encontrei o barquillero.

Lá estava ele, com a barquillera aos pés, pintada de vermelho e dourado, com uma espécie de brasão em que figurava o desenho de um casario de três andares, lembrando muito a arquitetura das próprias redondezas. Ao redor, as flâmulas “Felix Cañas” e “El Chungaleta“. Na tampa, a roleta que já tinha visto em várias fotos (vídeos eram mais escassos na época da minha pesquisa de campo, entre 2009 e 2011). Aparentemente, o barquillero que encontrei perto da Puerta del Sol não utiliza tanto a roleta para fazer a brincadeira da aposta com o número de barquilhos que o comprador vai levar, mas principalmente para fazer um som bem característico, a partir do qual se faz notar.

No dia seguinte, uma sexta-feira, retornei à praça para caminhar, captando sons desse lugar. O resultado é a gravação que se pode ouvir abaixo.

Acima, vê-se o panorama da Puerta del Sol a partir da Calle Mayor, com vistas às ruas por onde me meti. No mapa com o traçado ao lado, o ponto verde é onde começo a gravar, e o outro é onde termina a gravação. Ao longo dos vinte e dois minutos, fiz cinco paradas.

  1. Saída do Metro, a leste da praça (ponto verde)
  2. Iglesia de Nuestra Señora del Carmen
  3. Barquillero, no cruzamento da Calle de Preciados e da Calle Tetuán, à saída da loja de departamentos El Corte Inglés
  4. La Mallorquina, confeitaria
  5. Saída do Metro, a oeste da praça (ponto quadriculado)

Estación de Sol

Cúpula projetada por Antonio Fernández Alba

Comecei a gravar dentro da estação. Não lá embaixo, mas no topo das escadas, sob o abrigo, uma abóbada de peças triangulares translúcidas e espelhadas – “um volume discreto, uma estrutura leve e uma configuração formal transparente”, nas palavras do arquiteto responsável pelo projeto, Antonio Fernández Alba.

O início é o momento mais alto da gravação. Pouco depois das cinco e meia da tarde, são muitos os jovens sentados nos degraus de acesso (a escada rolante estava livre), escutando música que saía de alguma caixa de som que não consegui ver. Há muita gente na saída dessa estação, seja ali ou ao ar livre, porque ela é um ponto multimodal por onde passam três linhas do Metro de Madri e duas do Cercanías Madrid, serviço que leva também para fora da metrópole. A foto ao lado foi tirada às cinco da manhã do domingo, quando o pessoal dispersava depois de uma intensa noite de sábado no Centro.

No áudio, dá para ouvir quando aumento o volume do microfone (aquela dica de Udo Noll, do Radio Aporee). Mesmo tendo protegido o microfone com a pelúcia, a corrente de ar proveniente do deslocamento de trens no subterrâneo é tão forte que se faz notar contra o aparelho. Além disso, apesar do calor, sopra uma brisa, especialmente quando canalizada pelas ruas mais estreitas.

Conversas de transeuntes

Casal homoafetivo na sinaleira de pedestre

Gente rindo, tossindo ou conversando (às vezes em outros idiomas que não o castelhano), escapamentos de automóveis passando, volumes sendo descarregados, passos, pássaros, música vindo do interior de lojas e uma miríade de outros sons muito difíceis de identificar em meio ao burburinho do Centro.

Aos 2’17”, um menino comenta sobre a decoração das ruas. Mas, apesar de aquela noite ser a de São João, não se tratava das bandeirinhas desta grande festa junina – muito comemorada na Espanha, embora não seja o forte de Madri (“aqui não tem praia”, me disse o vendedor da loja do Museu do Prado). Todas as cidades espanholas que visitei se vestiram de arco-íris para o Dia Internacional del Orgullo LGBT, no 28 de junho, e o pai da criança tentava explicar que aquelas eram “bandeiras gays“.

Foi a propósito que viajei com uma calça culotte da Adidas, porque estaria bem quente em Madri e a vestimenta é muito aberta, parecendo até uma calça de samurai ou uma saia. É confortável, tem bolsos e cai bem com os tênis de caminhada (que não foram suficientes para me livrar dos calos, pelas excessivas horas que passei batendo perna). Mas ainda que seja fresca, a calça é 100% poliéster, e faz um som considerável pela fricção do caminhar. Portanto, é possível escutar meu andamento, o que não deixa de ser um dado que cada vez me parece mais interessante de se registrar.

Iglesia de Nuestra Señora del Carmen

Iglesia de Nuestra Señora del Carmen (Foto: Luis García-CC)

Por volta do sexto minuto, entro nesta igreja. Ela era parte de um convento carmelita fundado ali em 1575, mas construída no século seguinte. É impressionante a diferença entre o som no interior do edifício e fora dele. Como está durante todo o dia aberto, ele serve de refúgio silencioso à população que o adentra, como uma ilha de calmaria cravada no atribulado Centro de Madri. Há um órgão (menos cuidado que outros que tenho visto), mas não estava em uso naquele momento.

O que fica muito claro na gravação no interior da igreja – para além dos cochichos, passos, tosses e folhear de páginas que reverberam pela nave – são as interferências no aparelho que utilizo (um iPhone SE com um microfone Rode iXY). Acredito que isso se deva tanto ao poder de clausura do prédio, quanto ao fato de não se tratar de um gravador dedicado, mas de um smartphone, que fica constantemente buscando comunicação com as redes disponíveis, impedidas de entrar pela hermética estrutura arquitetônica, assim como as ondas sonoras. Isso lembra muito a entrevista com Jan Claas van Treeck e suas tentativas de tornar audíveis as comunicações entre as máquinas.

Assim, durante este percurso, tanto o dispositivo gravador (pela interferência) quanto o microfone (pelo vento) e a própria autora (pela calça de poliéster) se fazem perceptíveis no registro. Sem eles, não haveria gravação, mas é comum que tais presenças sejam neutralizadas, de forma que a audição dê acesso ao resto do entorno como se esses elementos dele estivessem ausentes.

Esquina do barquillero

Suerte y salut para ti, diz a cigana.

Vamos para esta noche, el premio especial para hoy es de…, diz o vendedor de bilhetes de loteria, um pouco mais adiante.

E finalmente, escuta-se a roleta rodando pela mão do barquillero, ao final deste trecho em que as pessoas são seduzidas de muitas maneiras a tentar a sorte. Como havia dito, me coloquei ali à esquina, perto do vendedor de barquillos, para ouvir o som metálico da roleta girando na tampa da barquillera. É intenso o trânsito de pessoas, entrando e saindo das lojas, subindo e descendo as ruas. Um homem expressa um xingamento: “Gilipollas!” Há jovens entusiasmadas, dando sonoras gargalhadas – afinal, o ano letivo estava terminando e as férias finalmente dando os ares da graça.

Há um episódio engraçado que pede um pouco de narração, ali pelo minuto treze. O vento soprando do oeste pela Calle Tetuán tirou das mãos de uma mulher um balão prateado, daqueles de formatos mais diversos que se produz hoje em dia. Voou rente ao solo. Um idoso aproximou-se para deter o objeto, pelo que a mulher adiantou-se agradecendo. Mas o senhor não teve outra ideia do que pará-lo com o pé, estourando-o. Talvez não o tenha reconhecido como uma bexiga. A mulher riu de toda a arrumação. Deixei a esquina alguns momentos depois, retornando à Puerta del Sol. Passando por cima das grades do metrô, esperava ouvir o som dos trens que escutei no dia anterior, mas por fim não compareceram. Em compensação, havia uma menina tocando violino na praça.

La Mallorquina

Reloj de Gobernación

Pelos 16’15”, entrei na confeitaria aberta em 1894 na esquina da praça com a Calle Mayor. Para os donos, sua história se confunde com a da cidade, e mesmo do país. “Alfonso XIII, duas guerras mundiais, a Segunda República, a Guerra Civil, o franquismo, a chegada da Democracia e, agora, aqui estamos contigo”, lê-se na abertura de seu site. Em seu interior, reverbera com muita intensidade o som dos talheres, pratos, máquinas de fazer o café e esquentar o leite, dos embrulhos dobrando sobre os doces para levar, dos pedidos dos clientes e da resposta dos moços do outro lado do balcão.

À saída, um homem pede uma esmola. (Havia um morador de rua em frente à igreja, mas ele nada pediu, tornando-se imperceptível ao microfone.) Um helicóptero passa. Posiciono-me próximo à saída do metrô que fica daquele lado da Puerta del Sol. Espero o Reloj de Gobernación bater seis horas da tarde no topo da torre da Casa de Correos, que naquele dia estava encoberta por lonas impressas com imagens do que escondiam. Achei baixa a projeção acústica do sino, e me pergunto se o anteparo teria algo a ver com isso. Fim de gravação.

(P.S.: estou preparando uma postagem só sobre barquillos e neulas, para breve.)

 

[Este traslado teve apoio do Programa de Excelência Acadêmica – PROEX da Capes, via UNISINOS, cujo Programa de Pós-Graduação em Comunicação é avaliado com nota 6 de 7.]

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