Conexões ibéricas: barquillos e neulas

É por não ter ainda entendido de onde vem o costume de usar o triângulo na venda de chegadinhos, tabocas, cascalhos e cavacos chineses em cidades do Norte e Nordeste brasileiros, e também de barquillos em Montevidéu e em cidades mexicanas como Puebla e Querétaro, que continuo buscando informações sobre fenômenos semelhantes, mesmo que a pesquisa do mestrado tenha acabado há alguns anos. Assim, além de compartilhar reflexões do doutorado no congresso organizado pela Universidad de Granada, a recente viagem à Espanha foi também proveitosa porque finalmente provei barquillos e neulas.

Banquinha no Mercat de Sant Josep (La Boqueria)

Os barquillos, como relatei na última postagem, encontrei no primeiro passeio que fiz pelas ruas do centro de Madri. Já as neulas apareceram em uma das primeiras banquinhas que avistei no mercado La Boqueria, em Barcelona. Estavam, portanto, em espaços públicos bastantes centrais e acessíveis a quem estava só de passagem, como eu.

No caso das neulas, não estavam tão óbvias. Eram um dos diversos produtos expostos, e vinham dentro de uma caixinha, de maneira que talvez passassem despercebidas. Mas havia uma grande placa anunciando torró (torrone). E, na Catalúnia, onde há torrone é muito provável que haja também neules. Havia!

Mas não eram catalãs, e sim valencianas, da comunidade autônoma que fica ao sul da Catalúnia, também na costa do Mediterrâneo. Aliás, torrones também são muitos tradicionais em Valência, o que me faz pensar que as neulas – ou neules, como no catalão – fazem parte de uma cultura íbero-mediterrânea que se distingue um tanto da cultura do centro da Península Ibérica, à qual estaria mais associado o barquillo.

“Barquillero en la Moncloa”, Alfonso Sánchez García (1908). Em exposição no Museo Reina Sofia, Madri

Barquillos são um elemento muito importante de uma cultura chamada castiza: o dito casticismo madrileñoCastizo pode dizer respeito a determinados graus de mestiçagem na América colonial, mas neste caso trata-se principalmente de um conjunto de elementos identitários de Madri, estabelecido entre os séculos XVIII e XIX. Enquanto isso, neulesneulas estão mais relacionadas a festas de inverno, especialmente os ritos natalinos, nessas comunidades à beira do Mediterrâneo.

Depois de uma tarde na Biblioteca Nacional da Catalúnia, pude incrementar a leitura sobre neules, principalmente com um livro do padeiro-pasteleiro Josef Vives i Molis, representante de uma família que está há muitas gerações no ramo. No levantamento de literatura, ele relaciona as neules com os barquillos, mas principalmente no que se refere à culinária, aos modos de fazer.

Para o autor, trata-se de uma sobremesa muito antiga, nada contemporânea, que acabou adaptando-se à fabricação massiva dos dias de hoje, perdendo muito de seu prestígio. No entanto, compreender seu papel na cultura seria compreender a própria cultura. E, neste caso, lidamos com um alimento de classes nobres e populares, que apresentou-se como elemento litúrgico e também pagão e profano.

Além disso, no que nos toca, certamente liga os povos americanos aos povos ibéricos. Até onde, é o que podemos tentar descobrir.

 

 

NEULES CATALÃS
(segundo Vives i Molis)
Ingredientes:
550 gr. de farinha
400 gr. de açúcar
3 gemas de ovo
50 gr. de manteiga
1 pitada de sal
1′ 800 L. de leite
Aromatizar com baunilha, limão ou canela, a gosto

NEULAS VALENCIANAS (Antiu Forn)
(tirado da caixa do produto Antiu Xixona)
Ingredientes:
Farinha de trigo
Açúcar
Margarina
Emulsificante (lecitina de soja)
Aromatizantes
Corantes (E-150d, E-160b)
Contém glúten, leite e soja. Traços de frutas de casca e ovo.

Encerro com uma matéria da televisão madrilenha, mostrando também o fazer barquillero, segundo eles tão castizo, que em muitos aspectos também se assemelha com o fazer chegadinho de Fortaleza, que julgamos também tão nosso.

 

[Este traslado teve apoio do Programa de Excelência Acadêmica – PROEX da Capes, via UNISINOS, cujo Programa de Pós-Graduação em Comunicação é avaliado com nota 6 de 7.]

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