AMT: é num lugar que as tecnologias estão em uso

Menor (mas ainda grande)

jussi-parikka-foto-twitterTroquei ideia sobre teoria da mídia e comunicação com Jussi Parikka, editor de livros que estão me ajudando muito na tese. Professor de estética e cultura tecnológica no Reino Unido, ele está agitando por aqui alguns eventos muito interessantes aos quais tive oportunidade de ir, como o lançamento do seu grupo de pesquisa em arqueologia da mídia e um seminário sobre pós-digital em parceria com o festival alemão de arte e cultura digital transmediale (em minúsculas mesmo).

Dá para extrair uma bibliografia e uma rede de pesquisa inteira dessa conversa com o finlandês autor de “What is Media Archaeology?“, que falou do que move esses eventos acadêmicos, do corpo nos estudos dos meios, de como encarar a questão do não-humano nas investigações, além da importância de estender tais questões até a dimensão geológica das tecnologias. De alguma forma, o futuro do planeta Terra está implicado no nosso uso das mídias.

O lançamento do AMT é um marco no tempo e no espaço. O que levou vocês a ele, e o que esperam realizar agora, como um grupo de pesquisa estabelecido na Escola de Arte de Winchester, da Universidade de Southampton? Que diferença isso assinala?

AMT, que é abreviação para Arqueologias da Mídia e da Tecnologia, de fato inclui esse tipo de condensação de possíveis direcionamentos: pode ser pronunciada à moda alemã como Amt, referindo-se a “escritório”, mas também a Airy Mean Time, que vem sendo cogitada como uma possível unidade de medida de tempo para Marte. Desde os espaços burocráticos cinzentos da tecnologia, onde o mundo moderno nasceu até os âmbitos especulativos interplanetários, nós quisemos dar essa ideia de múltiplas escalas de meios e tecnologias como condições de tempo e espaço, da condição contemporânea.

O Escritório tem sido um lugar chave da cultura moderna: talvez junto com a fábrica e o laboratório, é um espaço chave para tecnologias em uso, e onde o poder moderno não meramente reside, mas conecta-se: é um lugar de trocas e de telecomunicações, de digitação e de computação pessoal, de relações de gênero e poderes administrativos. Dê-me um escritório e eu criarei um mundo. Ou, se você quiser ser ainda mais burocrático, me dê um formulário e criarei um mundo! O AMT retoma nossos primeiros trabalhos na Escola de Arte de Winchester (WSA): trabalhamos por muitos anos com o festival de arte e cultura digital transmediale (Berlim) em tópicos relacionados a artes tecnológicas e de mídia. E na WSA gradualmente tentamos construir uma plataforma que oferecesse apoio a trabalhos cruzando o espectro teoria-prática. AMT é um nome para esse trabalho desempenhado por mim e pelo co-diretor Ryan Bishop, assim como por muitos outros colegas.

Queremos pensar o que fazer coisas significa para a teoria, o que conceitos teóricos podem fazer, e como teoria é, em si, uma prática.

O que a escolha dos pesquisadores convidados ao evento de lançamento do Escritório AMT e o trabalho que apresentaram nos dizem sobre o grupo de pesquisa e o que ele está propondo?

Embora o primeiro palestrante “oficial” do AMT tenha sido Shannon Mattern, da New School em New York, que nos visitou aqui em março de 2016, o evento de lançamento de fato aconteceu em outubro. Future Past Tense se orientou pelo nosso interesse em colocar em diálogo curadores, praticantes e teóricos. E não é meramente um diálogo falado num sentido tradicional. Queremos pensar o que fazer coisas significa para a teoria, o que conceitos teóricos podem fazer, e como teoria é, em si, uma prática.

Nurrungar (listening station), obra sobre a qual falou Louise K. Wilson
Nurrungar (listening station), obra sobre a qual falou Louise K. Wilson

brief para o evento foi amplo: falar de futuras temporalidades passadas, e as tecnologias que são parte inerente da coordenação das experiências, das políticas e das infraestruturas que da condição contemporânea. Foi assim que convidamos Joasia Krysa para falar de métodos mídia-arqueológicos em curadoria. Louise K. Wilson nos deu um insight sobre sua fascinante prática artística que toma a escuta como metodologia em epistemologias sônicas atreladas a lugares particulares da história militar e da vigilância. Kristoffer Gansing, o diretor artístico da transmediale, ofereceu um ângulo complementar aos sons do escritório, a partir de uma sacada sobre arte sonora computacional na fala “In Office: Humans, Machines and by Incident, Art”.

As outras apresentações variaram de um novo jeito de visualizar dados usando sismógrafos, por Sean Cubitt, e da abordagem fantástica e sólida que Ned Rossiter trouxe sobre trabalho e logística interplanetária nos dias atuais. A pesquisa de Rossiter tem continuidade no recente livro sobre pesadelos logísticos que ele lançou pela editora Routledge. No lançamento do AMT também tivemos oportunidade de dar as boas vindas ao nosso novo colega na Escola, Alessandro Ludovico. Os primeiros trabalhos teóricos (sobre Impressão Pós-Digital) e artísticos dele (quase não precisa apresentá-las, mas por exemplo Face-to-Facebook e Amazon Noir, e muitas outras obras de arte com software) têm muito a ver com o que queremos fazer com o AMT. E o dia finalmente terminou com uma peça performativa que caiu muito bem, de Jamie Allen, do Critical Media Lab Basel. Ele e Moritz Greiner-Petter apresentaram a palestra-perfomance “How to Build a Lie”.

O que essa seleção de palestrantes nos diz é que queremos ir e voltar da prática para a teoria, curadoria para outras formas de engajamento em que arte e tecnologia estejam em íntima proximidade. O Escritório é, ele mesmo, uma plataforma institucional em que isso tem lugar e que nos oferece uma maneira de contibuir para essa discussão. Como dito, isso no entanto não está encerrado só no que acontece no campus, mas conectado a várias outras instituições com as quais trabalhamos no momento: transmediale, a British Library (por meio de nosso projeto Internet of Cultural Things), a Bienal de Design de Istambul, com a qual mantemos um projeto, entre várias outras.

Que interseções entre teoria e prática acontecem no espaço do AMT?

O ambiente do estúdio é ótimo para facilitar esses encontros. Sou treinado nas Humanidades “tradicionais”, em História (Cultural), e esses últimos cinco anos na Winchester School of Art têm sido, de fato, minha primeira posição em uma escola de arte e design. Tem me ensinado muito sobre o que é o estúdio enquanto uma affordance institucional e aumentou minha curiosidade sobre espaços paralelos de interação, como o lab(oratório). Aqui, mesmo antes do AMT, pude aprender a partir dos briefs dos colegas das áreas de arte e design, entender o que o espaço em particular significa para a contrução de projetos baseados em práticas, e como eu mesmo podia participar como teórico. Com o AMT, somos capazes de trabalhar a partir disso. Não se trata meramente de sermos capazes de criar algo novo com seu espaço designado, mas de sermos capazes de contruir a partir de práticas já existentes, usá-las como nossa plataforma, como nos situação espacial em que, tanto para estudantes quanto para pesquisadores, tais interações – ou intra-ações, para usar o termo de Karen Barad – acontecem.

Burak Arikan produz mapas de dados para tratar de desigualdade na web
Burak Arikan produz mapas de dados para tratar de desigualdade na web

É claro, também temos a Winchester Gallery no campus, onde o trabalho Data Asymmetry, de Burak Arikan, está em em exposição. A galeria representa um espaço que, mais uma vez, permite uma forma diferente de interação prática-teoria, cruzando diferentes disciplinas da universidade e da Escola. Por fim, somos um grupo de pesquisa em uma escola de arte e desgin, que por sua vez está em uma universidade (de Southampton) fortemente inclinada à ciência e engenharia. Então esse entrosamento nos dá um bom impulso para nos movermos entre disciplinas e nos lançarmos ao contato com colegas em outros campos. E nossa escola dá muito apoio ao trabalho teórico, o que é perfeito para nós. Isso é raro deleite na academia britânica, tão orientada pelas avaliações e índices de excelência estabelecidos no Reino Unido.

Quando se dá ênfase ao não-humano, a coisas ou objetos (dependendo da abordagem teórica), alguns podem pensar ou sentir que estaríamos perdendo o humano de vista. Você acha que isso é realmente possível? E, considerando que a pesquisa do AMT está intrinsecamente relacionada a teoria crítica e arte, por exemplo, podemos assumir que o humano, o social e o cultural estão na base da abordagem de vocês em arquelogia de mídia?

Muitas das reclamações de que teoria sobre o não-humano perde o humano são uma espécie de falácia. O que é humano, em primeiro lugar? É uma certa forma de inclusão/exclusão que não enxerga não-branco, não-homem, não-europeus como parte dessa esfera de definição. Nessa súbita defesa do humano falta um contexto histórico, de que por exemplo a teoria feminista – como o trabalho de Rosi Braidotti – tem sido muito boa em fazer com que a gente se lembre. Até mesmo no caso da Humanidades, precisamos recordar que nem tudo delas tem sido progressivo. Tendo dito isso, é claro que sou um forte proponente dos estudos críticos, e das várias maneiras imaginativas como trabalhos pós-coloniais, feministas, anti-capitalistas podem ser feitos de uma forma rigorosa e com impacto.

Por isso nosso entendimento do não-humano se afasta da ideia problemática de que objetos e humanos estejam em igualdade de condições. Ao invés disso, estamos constantemente interessados na agência das formações não-humanas – não apenas “coisas” mas também infraestruturas, formas institucionais, forças econômicas e políticas – e como elas são condições de existência para aquela coisa que chamamos de o humano. É uma postura Foucaultiana, mas carregada com uma boa dose de teoria da mídia e um pouco mais. As múltiplas escalas do assim chamado Humano (para parafrasear Friedrich Kittler) estão registradas e definidas em práticas tecnológicas, o que é mais um motivo para investigar esse nexo.

Você está certa em apontar que muitas das nossas discussões, grupos de leitura e trocas conceituais se derivam de um corpo mais amplo de teoria crítica e cultural. De maneira alguma eu ou, por exemplo, meu co-diretor Ryan Bishop queremos negar o sucessivo impacto dela. Ao invés das narrativas auto-agrandadoras sobre reinventar completamente coisas novas, nós estamos constantemente atentos – e queremos passar isso para nossos estudantes de doutorado [PhD] – às genealogias da teoria, dos predecessores e das oportunidades perdidas do passado, affordances que guardam um frescor para envolvimentos contemporâneos.

Essa é uma ideia que Donna Haraway, por exemplo, também mencionava: lembre-se de dar crédito. O não-humano não é uma reveleção dos anos mais recentes. Precisamos reconhecer as genealogias através da teoria, da arte e da ciência que contribuem para esse debate. Isso significa também não estarmos meramente executando o cânone da arqueologia da mídia: ela é e será uma parte central de nossos interesses, e relaciona-se com os chamados debates alemães de teoria da mídia, arqueologia da mídia na teoria fílmica (Thomas Elsaesser) e por estudiosos como Erkki Huhtamo, Anne Friedberg, e muitos outros. Mas e quanto a desenvolver alguns dos insights da arqueologia da mídia em relação a práticas contemporâneas de arte e design, por exemplo? Ou em relação a outras discussões teóricas?

Recentemente, você foi palestrante convidado na conferência Open Field, parte do RIXC Art Science Festival, em Riga. O evento se orientou a “novas estéticas, condições contemporâneas, práticas digitais e situação pós-mídia”. O que seria pós-mídia nesse contexto? Como poderíamos relacionar pós-mídia a uma discussão contemporânea sobre o próprio conceito de mídia?

Eu mesmo não uso o termo pós-mídia quase nunca, então não posso comentar muito sobre a ideia do organizador. Mas tem muitas definições, uma delas relacionada a maneira como Felix Guattari usa o conceito (nos anos 1980) para se referir à condição pós-mídia. Não se trata apenas da emergência de novas tecnologias, mas, como Gary Genosko aponta, interessa-se pelas possibilidades de inventar novas subjetividades, novas singularidades que escapam aos poderes infantilizadores dos meios de comunicação de massa.

“Ficando com a encrenca”, minha tradução livre do novo título de Donna Haraway (2016)

Bem, a situação provou ser bem complexa quando se trata da emergência de novas formas de subjetividade nos últimos vinte, trinta anos de cultura de rede, algo do qual somos lembrados diariamente, desde as agências políticas ambíguas de [Julian] Assange, as ondas de misoginia online, até os poderes de vigilância que não estão restritos apenas à NSA. É tenebroso, mas deve-se evitar a solução fácil de acolher o frio niilismo [cool nihilism] do iluminismo sombrio e coisas do gênero. Precisamos ficar junto com a encrenca, para usar a frase de Haraway. Precisamos ser capazes de pensar para muito mais além da nossa própria situação e sobre as repercussões das novas tecnologias atravessando uma série de diferentes geografias e coletividades, não só nos centros de consumo midiático como os Estados Unidos e a Europa.

Acabamos de concluir com o transmediale o livro de trinta anos de aniversário do festival, Across and Beyond, que se concentra no pós-digital como um conceito que ajuda a entender as instituições de hoje em dia, práticas e trabalhos teóricos que andam pelos círculos de teoria e arte de mídia. O pós-digital torna-se uma maneira historicamente adequada de nos debruçarmos sobre a penetração do digital e suas instanciações materiais como infraestruturas e imaginários, como ecologias e como affordance para a ação política. Assim como com o AMT, esse livro, autores e artistas ajudam a cultivar essa troca entre métodos artísticos e o que muito de nós desenvolvemos na academia. A publicação vai sair em breve pela  Sternberg Press, e mesmo antes da  transmediale em fevereiro, em Berlim, nós vamos promover um seminário no Instituto de Artes Contemporâneas (ICA), em Londres, no dia 7 de dezembro, em que vamos falar do pós-digital.

Quando pensamos em não-humano, o que primeiro vem à cabeça são animais e máquinas, mas no ano passado você lançou seu livro “A Geology of Media“, ampliando a discussão para incluir macrotemporalidades. Como você conecta a discussão sobre mídia com o debate em torno do Antropoceno?

Meu livro surge no mesmo momento em que as discussões sobre o Antropoceno estavam – e ainda estão – acontecendo. Eu queria evitar contextualizar o livro apenas em relação a esse termo em particular, uma vez que ele foi concebido como parte de uma trilogia de trabalhos que começou com “Digital Contagions” (2007) e continuou com “Insect Media” (2010). Então a ideia das realidades não-orgânicas da cultura da mídia fez parte da concepção original de falar da longa constituição mineral, material, da tecnologia, e da ligação particular com as primeiras discussões que comecei a fazer sobre os mundos dos vírus e dos insetos.

A Geology of Media” é mesmo um livro sobre macrotemporalidades – ou sobre as maneiras pelas quais as acelerações da cultura tecnológica trabalham na vagarosidade do planeta, extendendo-se para a longa duração da história de milhões de anos dos media, na forma de minerais e de energia que mantêm o zunido dos farms de servidores da computação em nuvem. É a conexão com as materialidades escavadas durante a intensificação da extração de recursos ao longo das últimas centenas de anos e o longo rastro de desperdício eletrônico que liga essa discussão a temas semelhantes, como o Antropoceno. É um livro que conta uma história das culturas tecnológicas especialmente inspirada nas artes de mídia ligadas à energia, ao trabalho e aos materiais que constituem os meios tecnológicos.

O crítico literário Hans Ulrich Gumbrecht evoca a atmosfera para falar de experiência estética, enquanto o antropólogo Tim Ingold pensa o clima como medium, relacionando cultura à percepção. O trabalho que você desenvolve me fez pensar que talvez não seja apenas sobre Ar, mas também sobre Terra, Fogo e Água. Bachelard entra aí como influência? Como a alquimia e/ou a química oferecem novos insights para a teoria da mídia?

De fato, tentei olhar para a cultura midiática como parte dos elementais dos meios. Um tema parecido vai surgir depois, por exemplo, no livro de John Peter, “The Marvelous Clouds”. Minha abordagem vem menos de Bachelard, e mais de Robert Smithson, o artista da paisagem cujas observações sobre os materiais, os elementais, entre outros, têm particularmente mais a ver com o contexto do meu livro. Mas é também a questão das realidades químicas das tecnologias de mídia que faz com que ampliemos nosso insight a ver essas coisas desde meramente meios de comunicação (uma visão muito redutiva) até a maneiras em que os meios são também parte da história da ciência. É importante ver onde a arqueologia da mídia se sobrepõe a temas e tópicos na história da ciência. E portanto, a própria história da química é uma interessante história dos aparatos, dos experimentos, mas também da geopolítica. Os últimos 150 anos de cultura científica moderna são profundamente intercruzados pela história das guerras e mobilização por recursos, sejam naturais ou sintéticos, como parte de operações militares e suas extensões (como a agricultura). Isso representa outro link com os debates sobre o Antropoceno, claro.

Agora que estamos agregando às nossas perguntas o domínio daquilo que estabelecemos como “natureza”, será que poderíamos aspirar a uma “teoria de tudo” nos estudos de mídia e comunicação? Ou será que provavelmente teremos que encarar indeterminadamente uma fragmentação de campos dispersos, ainda que interconectados? A filósofa da mídia Sybille Krämer aponta que a comunicação enfrenta uma dupla vida conceitual, entre um modelo da transmissão técnica, derivando de Shannon e Weaver, e um modelo do entendimento pessoal, dentro de um tradição mais Habermasiana. “Dois contextos mutuamente opostos”, como ela resume.

kramer-modelos
Dupla vida conceitual da comunicação: esquematizei assim as ideias de Krämer

Ela trabalha com o primeiro, mas recupera uma discussão sobre percepção e rejeita o determinismo tecnológico. Fico pensando se esse tipo de trabalho é uma tentativa de abrir um terceiro caminho, ou se ela também está construindo sólidas pontes, e quais seriam as consequências. Você poderia nos ajudar a pensar sobre isso?

A teoria da mídia ou os estudos de mídia se tornariam uma empreitada hilária se tentasse ser uma teoria de tudo. Já há muito discurso filosófico generalizador sobre a verdadeira essência dos meios, a verdadeira essência do digital, e por aí vai. Não quero ser mal interpretado – Krämer é uma das vozes filosóficas empolgantes que existem por aí que são capazes de fazer sentido a partir de múltiplas vertentes conflitantes assim tão bem.

Mas pensando em alguns outros filósofos, estudos de casos rigorosos, histórias, provocações ligadas a histórias sócio-culturais ou a histórias materiais da percepção, a sensação é frequentemente mais interessante do que Teorias. É por isso que muitas vezes acho hilário quando filósofos contemporâneos se envolvem com estudos de mídia (ou cultura midiática) – e de jeitos que ficam em algum lugar entre oferecer generalizações brandas ou simplesmente simplificações bobas.

De qualquer forma, como você aponta, esse tipo de divisão que  Krämer mapeia é uma maneira de entender os diferentes campos dos estudos de mídia. Está claro que muito do que chamam de teoria da mídia alemã tem estado mais próximo da linhagem de Shannon e Weaver, e, para ser honesto, isso inclui uma maneira mais rica de olhar para a cultura da mídia técnica, porque ela é um ponto nodal crucial em como as comunicações se transformam em processamento de sinal.

Mídia não é redutível ao fenomenológico, mas ainda assim os padrões de sensação são uma parte visceral de certos eventos de mídia.

Mas essa divisão não é a única maneira significativa de fazer sentido do campo da teoria da mídia. Por exemplo, onde o entrelaçamento da mídia enquanto sensação encarnada/corporificada [embodied], como tópico, poderia ficar nessa divisão? Habermas tem muito pouco a dizer sobre o fato de que nossos ouvidos, olhos, pele e muito do que está envolvido nas afetações mídia-culturais antes de se tornar de fato “entendimento”. O entendimento se dá muito depois, e antes disso acontece muita coisa: irritações, atritos, afetuosidade confusa, clarões diante dos olhos, zunidos em nossos ouvidos. Mídia não é redutível ao fenomenológico, mas ainda assim os padrões de sensação são uma parte visceral de certos eventos de mídia.

Os corpos emergem a partir de relações mediadas, e corpos como parte de ambientes mais amplos são alvos cruciais para aquilo que chamamos de comunicação. Este é o motivo pelo qual as chamadas teorias neo-materialistas são úteis em elaborar sentido a partir do evento do corpo nas várias modulações estético-técnicas do corpo. Tem o trabalho de Milla Tiainen nos estudos do som, as elaborações do corpo por Brian Massumi e Erin Manning, além de Braidotti e outros que pensam as intensidades do corpo. Muito disso pode até não ser “teoria da mídia”, mas isso não pode nos deter. Maria-Luise Angerer, por exemplo, tem sido muito bem sucedida em encontrar interfaces entre tais trabalhos teóricos sobre arte e cultura e teoria da mídia.

Jussi Parikka conduzindo o debate depois das apresentações do seminário
Jussi Parikka conduzindo o debate no seminário “Post-Digital Institutions and Practices”, no Institute of Contemporary Arts (ICA), em Londres

Graças à série Recursions, agora temos a oportunidade de ler em inglês estudiosos alemães emergentes, como já citamos aqui Sybille Krämer e Wolfgang Ernst. Você é membro do comitê editorial, então talvez pudesse nos dizer quais são os próximos planos, e o que considera a maior contribuição desses livros para os estudos de mídia e de comunicação hoje.

É bem divertido estar fazendo essa série com Geoffrey Winthrop-Young e Anna Tuschling, dois colegas cujo trabalho e expertise admiro bastante. E é exatamente essa tarefa de estender o entendimento internacional sobre alguns debates chave na área dos estudos de mídia em que se fala alemão que nós tínhamos em mente. Mas não é só traduções que fazemos, e às vezes é bom lembrar que muitos desses estudiosos estão emergindo apenas aos nossos olhos internacionais. Muitos deles têm sido pioneiros, com anos e anos de experiência e histórico, como Krämer and Ernst.

Nossos futuros livros incluem muitos projetos bem empolgantes. Em breve vai sair o livro de Ute Holl sobre cinema e cibernética, que vai vir com um prefácio de Pasi Väliaho. Será de interesse de muitos colegas dos estudos fílmicos também. Acabamos de lançar o perspicaz livro de Richard Cavell sobre McLuhan, e na nossa lista de traduções temos “Computer Game Worlds”, de Claus Pias, e muito mais.

O livro de Liam Young sobre listas como técnicas culturais sairá no próximo ano, assim como a substancial perspectiva de Michael Goddard sobre as ecologias da mídia do ativismo desde os anos 1970 – rádio piratas e muito mais. Isso é só para mencionar alguns do livros que estão por vir na nossa lista, e queria lembrar isso também: acabamos de publicar a coleção Memory in Motion, que está disponível com livre acesso e inclui uma variedade de teóricos muito estimulantes, como Tiziana Terranova, Matthew Fuller, entre muitos outros. Então estamos tanto trabalhando no centro dos tópicos que são tão queridos aquilo que muitos chamam de “teoria da mídia alemã”, ao mesmo tempo em que incentivamos a exploração de novos tópicos e temas, em relação a arqueologia da mídia, técnicas culturais e outras questões afins. Assim as discussões podem se ampliar e se transformar também.

Versão em inglês

:: Este doutorado sanduíche está sendo financiado pela Capes – Ministério da Educação do Brasil, por meio do Programa Professor Visitante do Exterior do Ciência Sem Fronteiras ::

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