Novo livro: Som direto no cinema brasileiro

Quem busca uma contextualização do campo de trabalho em captação de áudio para o cinema no Brasil, agora tem à disposição o novo livro de Márcio Câmara. Ele se reveza há décadas entre as tarefas de realizador audiovisual, técnico de som direto e professor (eu mesma já fui aluna dele, no Instituto Dragão do Mar).

Nesta publicação, além de tratar do que faz o técnico de som direto e trazer dicas quentes para esse trabalho, Márcio também apresenta uma série de desafios enfrentados no país ao longo do tempo. Passa pelas mudanças dos padrões de gravação e os resultados nas obras, desde a chanchada até o Cinema Novo, chegando à produção de nossos dias. Relata também acontecimentos que marcaram o desenvolvimento da área e dá nome aos pioneiros, contando como os profissionais do som direto driblaram criativamente problemas como a defasagem tecnológica. A influência de questões estéticas, políticas, tecnológicas e de mercado não passam batido, tornando a obra mais densa.

Graduado em Cinema pela San Francisco State University, Márcio Câmara já trabalhou no som de filmes como Lavoura Arcaica (1999), Cinema, Aspirinas e Urubus (2003) e Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios (2010). Estes são apenas três dos títulos pelos quais ele foi repetidas vezes indicado a prêmios da Associação Brasileira de Cinematografia e da Academia Brasileira de Cinema. Também produziu e dirigiu o documentário Rua da Escadinha 162 (2003), ganhador de trinta prêmios. Bati um papo com Márcio Câmara sobre o livro que está lançando.

Que perguntas te guiaram para chegar a este resultado?

As perguntas já são parte de uma curiosidade sobre a minha própria profissão. O que me guiou foi o que chamei de invisibilidade do trabalho criativo do Técnico de Som Direto na cadeia audiovisual. Busquei na resposta dos meus pares algumas respostas para esclarecer algumas indagações sobre a profissão, tentando perfazer um caminho histórico do uso de som direto no cinema brasileiro contemporâneo.

Você contou com alguma agência ou instituição apoiando?

A Capes. O livro é a minha dissertação de mestrado, que defendi na UFF – Universidade Federal Fluminense, em Niterói, de 2013 a 2015.

O som do cinema brasileiro já foi muito criticado. Ainda cabem as mesmas críticas hoje?

Não, não mais. Esse estigma de que o som no cinema brasileiro é ruim já não é mais uma realidade. Isso se deve a alguns fatores: melhoria dos equipamentos de captação, a efetivação da profissão de edição de som e da digitalização desse processo, e principalmente a melhoria nos sistemas de reprodução de som nas salas de cinema. Isso não quer dizer que a prática de captação de som direto no set tenha se tornado mais fácil, mas que já atingimos um grau de excelência sônica igual a qualquer outra cinematografia.

Qual a importância de estudar o som no cinema?

Bom, sem som não temos a primeira parte da palavra audiovisual. E esses estudos sobre som são muito recentes, por volta de meados dos anos 80, em outros países. No Brasil, só muito recentemente é que temos uma vasta bibliografia que aborda essas questões sonoras. Por isso o livro aborda questões históricas, para fazer pensar sobre o papel dessa pessoa que é a responsável pela captação dos sons no set de filmagem e a sua participação criativa no processo audiovisual como um todo.

Você está familiarizado com a prática de gravação de campo (field recording)? Se sim, que diferenças poderia apontar entre esta prática e o trabalho do profissional responsável pelo som direto?

Sim, estou. O trabalho do Técnico de Som Direto, desde que dado o seu devido espaço e tempo, é exatamente a mesma coisa dessa prática que menciona. Só que o Técnico de Som Direto está captando sons para fazerem parte de um filme, que contém imagens. Se ele for só delegado para a captação de diálogos no set de filmagem o seu trabalho pode ficar restrito a isso. Depende de quem efetivamente dirige o filme ter a percepção da importância do som na sua narrativa, para tornar livre e delegar a esse Técnico de Som Direto a função de ajudar a contar a sua história sobre uma perspectiva sonora.

O que você tem feito ultimamente?

De uns anos pra cá, tenho mesclado a minha atividade de Técnico de Som Direto com a de realizador e também a de professor. Passei a fazer meus filmes e a dar aula em diversos lugares do Brasil sobre som, não só na sua prática como também na sua história e na sua estética. Isso ampliou bastante os meus horizontes e o livro é um legado que deixo sobre um tema que nunca foi contemplado pela academia e que agora está disponível para estudo.

Para adquirir o livro, basta entrar em contato com o autor, pelo e-mail euphemiafilmes [arroba] gmail.com.

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