Pensar a ritmanálise

Na semana passada estive falando sobre ritmanálise na III Jornada de Pesquisas sobre Tecnologias Comunicacionais Contemporâneas, em Porto Alegre. O encontro não pedia artigos, e sim problemas com os quais estamos lidando nas investigações em curso. Não queria resultados, mas impasses. Bem interessante. Seria ótimo se uma parcela maior dos eventos acadêmicos tivesse esse perfil. A chamada me pegou no final da leitura de Rhythmanalysis: Space, Time and Everyday Life, de Henri Lefebvre, e acabei submetendo o seguinte resumo expandido – que deve virar artigo em breve.

Ritmanálise como proposta metodológica

Iniciando o último semestre antes da qualificação de doutorado, encontro-me às voltas com a ideia de ritmanálise como método para abordar processos midiáticos observáveis na prática de fazer mapas sonoros. Embora possamos identificar mapas sonoros como um tipo de plataforma cartográfica colaborativa disposta na internet, onde se encontram áudios de gravações ambientais geolocalizadas, eles não interessam a esse estudo meramente em seu aspecto “mídia”. Antes, interessa o processo que envolve sua produção e que eles tangenciam, pois tomá-los como objeto – ao invés de processo – poderia, entre outros problemas, aplanar as camadas de mediação implicadas nele. Tal processo, mais dinâmico, relaciona-se desde a uma postura de escuta ativa diante do ambiente, passando pelo manuseio de aparelhos para gravação, até chegar ao desenvolvimento e utilização dos mapas sonoros propriamente ditos. No atual estágio da pesquisa, estou me referindo a esses subprocessos, ou práticas constitutivas do processo mais amplo, como momentos.

A ritmanálise foi uma ideia originalmente lançada pelo pesquisador português Pinheiro dos Santos, quando radicado no Brasil, e que influenciou Gaston Bachelard na formulação de sua crítica a Bergson, contida na obra Dialética da Duração. Para Bachelard, a durée não podia ser tão coesa como concebida por Bergson, e sim descontínua e fragmentada. Revelou-se adequado, portanto, pensá-la em termos de ritmo, numa orquestração intercalada por pausas e retomadas – o que evitaria o desmanche de outras noções importantes, como a de evento. Mais tarde, Henri Lefebvre trabalhou mais a fundo a ideia de ritmanálise, com foco no espaço urbano (externo, público), somando reflexões como a necessidade de “pensar aquilo que não é pensamento”, de dar ouvidos ao ruído, ao corpóreo, ao sensível e ao concreto.

Henri Lefebvre, por Bert Verhoeff (1971)
Henri Lefebvre, por Bert Verhoeff (1971)

O pensamento de Lefebvre, um teórico reconhecido por sua ideia de espaço social, se apresenta para mim como um importante articulador entre os conceitos e backgrounds teóricos mobilizados adicionalmente pela pesquisa: o espaço (teoria espacial) e o som (sound studies). Parece promissor o fato de ele pensar o espaço e o social a partir de uma imaginação acústica, pois leva a crer que aspectos próprios ao sonoro possam ser mais contemplados nesses esforços de teorização. Considerado a quarta obra de sua série sobre a vida cotidiana, o trabalho sobre ritmanálise é o último livro de Lefebvre, lançado postumamente. Sua proposta era a de transformar a ritmanálise não só em um método, mas até mesmo em uma “ciência dos ritmos”.

Mas apesar de sua potência heurística, o texto deixa esse método por ser melhor delineado. O desafio agora tem sido buscar pesquisas posteriores que tenham retomado, desenvolvido e/ou questionado a ideia de ritmanálise, que a tenham aplicado como método, a que problemas e com quais resultados, etc. Nas últimas semanas, tenho me dedicado a me aprofundar nas ideias de Lefebvre e a buscar investigações que já tenham trilhado alguns desses caminhos, especialmente na área das novas mídias, para poder conceber uma forma consistente de, no contexto de minha investigação, trabalhar com a ritmanálise – ou, ainda, se for o caso, abandoná-la.

* * *

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Quando terminei de ler o livro de Lefebvre, fiquei com muita vontade de conversar com alguém sobre aquelas ideias de ritmo, vida social, sons da cidade, a relação dos fluxos (de pessoas, de coisas) com o capitalismo, a proposta de se debruçar sobre o cotidiano com o corpo e, em particular, com o ouvido. Felizmente, descobri o blog acima. Ele nasceu depois que um grupo de estudantes de novas mídias da Universidade de Amsterdã leu Rhythmanalysis e decidiu fazer algo diferente: criar vários vídeos inspirados na leitura (inclusive o que abre este post).

As peças audiovisuais não existem para ilustrar a obra de Lefebvre, mas para mergulhar na teoria por meio da prática, da observação e da arte. O blog Rhythm of Capitalism reúne esse material e também traz dicas de leituras adicionais, ou aponta para outras obras artísticas. Trata-se de uma forma singela de “conversar” com outros leitores. É bom saber que muitas frases destacadas por eles estão entre as que mais me chamaram atenção, por exemplo.

Apesar de não haver ainda uma tradução para o português, espero encontrar mais gente na comunidade lusófona que esteja a par desse trabalho, como já é o caso de Carlos Fortuna e Luciana Mendonça em suas contribuições para a coletânea de artigos Plural de Cidade: Novos Léxicos Urbanos. Se começarmos a discutir mais o pensamento da ritmanálise, quem sabe possamos contar com essa tradução do teórico francês num futuro próximo, não é mesmo?

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4 Comments

  1. ola thais! estou numa busca parecida, so q às voltas de usar a ideia de ritmanálise para na minha pesquisa de doutorado para observar os fluxos sonoros de espaços da cidade que passam por mudanças muito rápidas, no caso , a regiao portuária do rio de janeiro.

    tbm to envolvida com a produçao de mapas sonoros, no caso to produzindo um da regiao portuária, numa tentativa que essa plataforma me ajude nesse estudo. http://www.sonsdoporto.com

    abraços! muito legal teu blog. obrigada pelo post. claudia

    Em 7 de setembro de 2015 18:33, ESCUTA NOVA ONDA escreveu:

    > thaisaragao posted: “http://www.youtube.com/watch?v=Lp1WBWzmAno Na semana > passada estive falando sobre ritmanálise na III Jornada de Pesquisas sobre > Tecnologias Comunicacionais Contemporâneas, em Porto Alegre. O encontro não > pedia artigos, e sim problemas com os quais esta” >

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