Visual-áudio: noção e prática

 

Captura de tela 2015-06-30 09.14.45

Surpresa grata: as fotos com áudio que a NatGeo vem postando em seu perfil no Instagram. Isso porque as opções de trilhas musicais nos vídeos podem incomodar bastante quem se interessa pelo caráter documental do material apresentado (e aqui estamos falando da apreciação do material inteiro, em sua integralidade). Assim, unir à fotografia o som do lugar onde ela foi tirada é como revelar um segredo. Sem precisar, porém, abrir mão da fotografia, que é das expressões maiores da revista desde 1905.

Alguns fotógrafos ligados à publicação são entusiastas das gravações de campo (field recordings), e bastante dispostos a apresentá-las juntamente com suas contrapartes visuais. É o caso de John Stanmeyer, autor da imagem acima e da World Press Photo of the Year 2014. Ele propõe um nome para a reunião: visual-áudio. “Não gosto muito da palavra multimídia. Imagens em movimento com som são filmes, não importa o quão curtas ou longas. A combinação de sons com imagens paradas não é multi. No máximo, é dual-mídia”, defende.

Stanmeyer: imagens com o som ambiente do evento permitem ao espectador outras percepções sensoriais.

Grande apreciador do trabalho do etnomusicólogo Alan Lomax, Stanmeyer encontrou no que chama visual-áudio o melhor formato diante das pressões da presente era de slideshows. No início, sentiu-se meio que vítima da obrigação de ter que preparar elaboradas apresentações com still e áudio – frequentemente música. Depois, passou a agregar uma narrativa verbal, para deixar o resultado mais significativo para os espectadores e para si mesmo. Mas as gravações de campo se revelaram um interesse à parte.

“Realmente sinto que a combinação de fotografia (ou até mesmo uma série de imagens) pode ter uma apresentação expandida se as imagens também foram mostradas com o som ambiente do evento, permitindo ao espectador se envolver com outras percepções sensoriais. Mas tem que funcionar”, alerta. Para isso, o som tem que coincidir de ser tão interessante quanto o visual. E tem que ser bem captado. “Áudio ruim pode arruinar qualquer projeto.” Por esse motivo, ele compartilha muitas dicas em seu blog – onde, a propósito, encontrei essas reflexões dele.

Mas o visual-áudio não precisa ser apenas para profissionais.

Há dois anos, baixei em meu smartphone o aplicativo Soundgramr, de muito simples uso. Ele rendeu uma bela coleção de fotografias que guardam consigo alguns segundos de som gravados no momento do clique. O desenvolvedor do Soundgramr é um brasileiro, João Victor Vital, que foi super atencioso e atendeu ao convite do blog para falar um pouco sobre a criação do app.

Como teve a ideia de casar a foto com o som do momento em que foi batida? Quais foram suas influências, seja no campo das artes, do entretenimento ou da tecnologia?

João Victor Vidal (Soundgramr)João Victor – Tem um filme italiano (“Vermelho como o céu”) que fala de um menino cego que usa um gravador pra encenar uma história. Acho que o filme me fez pensar sobre as possibilidades de se contar uma história através de sons. A arte de Miranda July também foi uma influência. Mas na hora de fazer o app, eu tinha dois propósitos que foram guias no desenvolvimento:

1) Nostalgia. Acho que o som dá uma dimensão diferente à foto, um outro tipo de viagem na memória diferente do Instagram. É por isso que, além do som, os filtros que vinham no Soundgramr foram todos elaborados pra serem bem “quentes”, bem retrô, mais até que o Instagram;

2) Ser prático. Geralmente as pessoas perguntam “por que não fazer vídeo?”, mas fazer um bom vídeo é mais difícil e menos prático que tirar uma boa foto. Por isso a captura do Soundgramr é toda feita em um único click, da forma mais eficiente possível.

Uma das influências para criar o Soundgramr: o filme “Vermelho como o céu” (Itália, 2006, Dir.: Cristiano Bortone)
Uma das influências para criar o Soundgramr: o filme “Vermelho como o céu” (Itália, 2006, Dir.: Cristiano Bortone)

Também queria entender o aplicativo no contexto da sua trajetória como desenvolvedor – onde se capacitou, como trabalha, que metas tinha na época.

JV – Sou formado em computação, trabalho com programação. Mas aprendi a fazer apps por conta própria. Queria tentar uma carreira independente criando apps, como alguns poucos desenvolvedores conseguem. Ainda não consegui. De todo modo, tem o prazer de transformar uma ideia em produto. É um desafio ir até o fim e conseguir sair do outro lado com um produto pronto. Principalmente quando se está fazendo tudo sozinho, que foi o meu caso. Fiz outros apps, como o Tinge (também de fotografia).

Que desafios encontrou no processo de desenvolvimento mais particularmente ligado à parte sonora?

JV – A maior dificuldade técnica foi, e continua sendo, como compartilhar as imagens com som. Nada muito especial com relação à parte sonora.

Soundgramr: mais artístico e menos comercial do que João Victor Vital imaginou inicialmente.

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Em termos tecnológicos, o que potencializou e também restringiu essa ideia? Ficou muito diferente do que você pensou?

JV – O resultado ficou próximo do que eu queria. Mas ao mesmo tempo é um projeto mais artístico e menos comercial do que eu imaginava inicialmente. Na época que lancei o Soundgramr, surgiram apps como Vine e vídeo no Instagram. Foi o começo da onda do compartilhamento de vídeo. O Soundgramr não tinha recurso de compartilhamento e isso fez falta. Percebi que o compartilhamento é importante. Fazer um app minimamente bem sucedido é difícil. Fiz vários apps, com resultados medianos. É difícil de alcançar as pessoas, mais difícil ainda de cativar. O Soundgramr apareceu em alguns sites brasileiros, que foi bacana e deu alguma visibilidade. Imagino que por isso também, praticamente todos os downloads eram brasileiros. Mas levando em conta o tempo e esforço gastos no processo, desse e de outros apps, o retorno é nulo. É frustrante. Além disso, o Soundgramr é um app com um perfil meio artístico, o que torna mais difícil de se conseguir algum retorno direto dele.

Compartilhamento é o tipo de recurso adicional que o aplicativo pode ganhar no futuro?

JV – Sim. Comecei também a trabalhar numa ideia de poder mixar soundgramrs pra formar uma história.

Quando teremos o Soundgramr relançado?

JV – Não sei. Quem sabe no ano que vem, ou quem sabe uma versão sem muitas novidades antes.

* * *

Enquanto aguardamos, podemos pensar um pouco mais sobre a noção e a prática do visual-áudio. Trouxe alguns trechos traduzidos do pensamento de John Stanmeyer, ilustrado pelo trabalho do Emerson Machado, meu colega no Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação da UNISINOS (e que acaba de passar pela qualificação de mestrado!). Emerson está estudando o fotográfico no projeto Magnum In Motion e, em 2007, realizou “Rastros e Sombras”, seu primeiro trabalho autoral, apresentado no Festfotopoa. As imagens do Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre, foram captadas durante o mês de outubro e os sons, em novembro.

Vamos curtir o resultado e saber o que mais Stanmeyer tem a dizer! =]

John Stanmeyer: “Então como deveríamos chamar a combinação de sons com still, em que as gravações de áudio assumem uma igual ou possivelmente maior importância que o visual? Eu prefiro Visual Áudio. Muito mais cativante. Uma essência mais verdadeira em que sons criam imagens na mente.”

“Num nível profissional, sou um fotógrafo. O poder da imagem de still durará por todo o sempre. Qualquer um que queira debater essa realidade até virar uma cola derretida pode fazer isso para a alegria de seu coração. Faça isso, defenda suas teorias para uma maçaneta de porta, mas não para mim. Esse tipo de discussão é, de longe, uma das maiores perdas de tempo que existem nesse campo da arte e nessa profissão. A discussão deveria se dar sobre o que podemos fazer com todas as formas de comunicação.

Num nível pessoal, sou um viciado em gravação de campo. Quando estava morando na Itália, no meio dos anos 80 – usando uma câmera de uma forma completa, claramente diferente… moda –  eu vagava pelos arredores de Milão fazendo gravações em um gravador macrocassete, passando para um estéreo cassete da Sony, uma vez me dando conta de que estava obcecado pelos fascinantes sons do som. Usando uma legião de microfones ao longo dos anos, mais ou menos há sete anos eu me deparei com microfones binaurais para gravação de espaço auditivo dimensional, mudando dramaticamente não apenas como eu gravava áudio a partir de uma perspectiva do som espacializado, mas também me permitindo ser um fotógrafo ao mesmo tempo.

Eu pirei.”

“A discussão deveria se dar sobre o que podemos fazer com todas as formas de comunicação.” (J. Stanmeyer)

“Gravações de campo [ajudam] a expandir mentes e corações a partir do poder que som e visão têm de capturar a consciência.”

“Este blog [não deixem de ler o blog de John Stanmeyer] é para compartilhar esses sons nos quais muitas vezes prestamos atenção enquanto olhamos pelo estreito quadro de uma câmera, e que nos permitem adicionar percepções à experiência, para além do enquadramento da câmera.”

* Para o resultado desejado, a audição de gravações binaurais deve ser feita com fones de ouvido.

 

 

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