Meu primeiro vendedor de casquinha

Se tudo transcorrer como previsto, próxima semana estarei em Fortaleza, onde pretendo ouvir o vendedor de chegadinho. Antes disso, aqui deixo um vídeo que fiz de supetão no final de janeiro, quando fui à praia de Capão da Canoa, no litoral norte do Rio Grande do Sul.

Encontrei esse moço muito jovem vendendo casquinha, que é como chamam o equivalente ao chegadinho aqui, a 4 mil quilômetros da capital cearense. Digo equivalente porque o sabor e crocância do chegadinho e da casquinha são muito parecidos. Além disso, ambos são vendidos em espaços públicos, por ambulantes que usam o som para chamar a atenção das pessoas.

Mas, além do nome, muda a forma. Enquanto o chegadinho tem aparência de cone, de pétala de rosa, do funil que lhe dá aquele formato característico logo que ele sai da chapa quente sobre o forno a carvão, a casquinha tem forma de canudo (como também o cavaco chinês, em alguns lugares do Nordeste).

O som também muda. Ao invés de triângulo, o vendedor da praia gaúcha usa uma matraca, feita de madeira e um pedaço de ferro. Parece uma tábua de cozinha, com um buraco servindo de alça para a mão. Acionada com movimentos rápidos do braço e da mão do vendedor, ela faz o ferrinho bater contra a madeira e produzir este som, que os vendedores sofisticam tocando mais rápido ou mais devagar, fazendo pausas mais ou menos demoradas, articulando o som de maneiras bem interessantes. Durante o curto tempo em que estive na praia, pude perceber que nem todos os vendedores de casquinha (sim, são vários que passam) tocam a matraca do mesmo jeito. Alguns acabam deixando marcado seu “estilo”, o que não deixa de entreter.

Interessante como se diversificam os usos que se faz dos instrumentos. As matracas são bem conhecidas por serem um objeto litúrgico católico, substituindo os sinos durante a Semana Santa, sendo também usadas pelas ruas para chamar procissões. Rapidinho encontrei imagens de matracas semelhantes na internet, especialmente em sites de Portugal, como este e este. Também encontrei esta matraca de Minas Gerais, datada do século XIX, que está em exposição no Museu Afro Brasil, em São Paulo. Curiosamente, não encontrei matracas tão parecidas quanto essas em outros países – pelo menos não seguindo esta lista da Universidade de Yale, que traz o nome de instrumentos  em seis idiomas. Um mergulho na organologia cairia bem.

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2 Comments

  1. Essa casquinha é igualzinha a um biscoito que é vendido nos sinais de trânsito no Rio. Esses biscoitos causavam a maior dor de cabeça nos pais, pois todas crianças gostam e eles fazem a maior lambança dentro dos carros. Muitos vendedores usam essa mesma matraca.

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