Um meme?

Vendedor de chegadinho na capa do CD "Cidadela"

Alguém aí viu o filme “A Origem”? Bom, ultimamente fico pensando em como uma ideia aparentemente simples, às vezes até banal, cresceu em minha cabeça, a ponto de ter me levado à pesquisa que atualmente desenvolvo, em nível de mestrado.

Teoricamente, meu objeto é o som como elemento constituinte de territorialidades. Empiricamente – digo, na prática – esse pensamento surgiu da atenção que dei ao vendedor de chegadinho, que passa pelas ruas de Fortaleza. Reservo alguma atenção a esse ambulante há muito, muito tempo. Desde que era criança. Aliás, minha memória me informa hoje, com uma considerável riqueza de detalhes, a primeira vez em que perguntei a um adulto, em casa, o que era aquilo que eu estava ouvindo.

Obviamente, quando fiz a pergunta, minha intenção não era exatamente saber o que estava ouvindo, porque eu talvez soubesse o que estava ouvindo (um triângulo tocando, ora!). Ao fazer aquela pergunta, o que eu queria mesmo saber era o que estava acontecendo. O som do vendedor de chegadinho aponta para um fenômeno mais complexo que um evento sonoro, como este seria abordado pela Acústica, por exemplo. Por isso estou esmiuçando o tema, num programa de pós-graduação interdisciplinar.

Mas voltemos à ideia. Àquela ideia – ou aquela questão – que veio crescendo em minha mente desde aquele primeiro momento. Ela podia ter ficado ali, quietinha. Mas, não. O que a fez saltar, se sustentar como uma ideia própria e ficar forte foi a forma como outras ideias com as quais tive contato a fizeram reverberar.

Para isso, dois livros foram fundamentais – além dos momentos de reflexão proporcionados pela minha especialização em Comunicação em Cultura, entre 2006 e 2008. São eles: “A afinação do mundo”, de Murray Schafer, e “Noise: the political economy of music“, de Jacques Attali. O primeiro foi um livro que, quando eu trabalhava no jornal O Povo, em Fortaleza, ninguém quis levar pra casa. Faltando espaço físico, os lançamentos enviados para resenha eram divididos entre os jornalistas da editoria de cultura. Este sobrou, pasmem! Levei para casa, e isso mudou minha vida. Mas não imediatamente. O livro foi lançado em 2001, mas só completei a leitura em 2006, durante um Festival de Música da Ibiapaba – onde, não inadvertidamente, fiz um minicurso com a própria tradutora do livro de Schafer, Marisa Fonterrada.

Já o livro de Attali foi encontrado na biblioteca do Instituto de Artes da UFRGS, em Porto Alegre, quando eu estava levando bem a sério essa história de fuçar as fronteiras entre barulho e música. Isso em 2007, quando vim fazer um curso no Centro de Música Eletrônica da Federal gaúcha. Ao contrário d’”A Afinação”, a leitura de “Noise” foi muito mais arrebatadora. Mas o certo é que as instigações de um completaram as do outro.

No entanto, antes dos livros, houve também aquelas guitarras do pós-punk. Sonic Youth, My Bloody Valentine, o “Westing (By Musket & Sextant)” do Pavement, Velvet Underground. Bachelard parece estar certo: a gente vai da prática para a teoria, da teoria para a prática, o tempo todo. E, entre os livros e as bandas que (permitam-me o clichê) “flertavam” com o noise, havia a própria Gerador, um pequeno selo e produtora cultural que mantive com meu irmão por alguns anos. Ali produzimos alguns shows, lançamos alguns CDs… como este:

“Cidadela” é um álbum de Pádua Pires que tem Fortaleza tanto no nome quanto na imagem da capa: um vendedor de chegadinho. Música e identidade são temas que se entrelaçam de forma recorrente. (A propósito, o que é o título do álbum do Pavement mencionado senão uma referência à saga de dominação ianque? “Westing” é uma distância viajada a oeste. Só que, naquele caso, à base de espingarda e outros instrumentos de “orientação”.) Pois bem, acho que aquela imagem da capa de “Cidadela” reverberou, mas para outros lados. Tanto que não passei a ouvir mais Pat Metheny por causa da aproximação com aquela turma, mas alguns meses depois, quando um dos parceiros musicais de Pádua também estava gravando, escrevi estas linhas:

“Meio da tarde, meio de semana. No meio da rua passa um homem empurrando o carrinho de picolé e tocando o sininho. Detrás do muro, na sala de uma casa sem cortinas, as gravações param para deixar passar o vendedor em seu badalo. Luís Miguel aproveita para descansar os dedos sobre as cordas do baixo acústico. Para o corpulento instrumento não escorregar pelo chão liso de cerâmica, ele está calçado no pé direito das havaianas de Junior Boca. Sentado à beira do sofá, o guitarrista atentamente ouve ficar pronta mais uma trilha de seu primeiro álbum, gravado num inspirado improviso, como o bom jazz.”

O nome do álbum? “ID”.

Idos 2003.

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Foto da abertura: capa de “Cidadela”, de Pádua Pires, por Juca Santabaia

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3 Comments

  1. eu acho o som do triângulo um dos sons mais lindos do mundo!!! quando eu era criança eu costumava ouvir, e adorava, o som do afiador de facas!!! de vez em quando ainda passa um por aqui!!! é muito raro!!! mas quando ele passa, eu sempre paro de tocar o que quer que eu esteja tocando para ouví-lo!!! eu amo as músicas paralelas a música!!! recentemente gravei para meu estudo a Sonata de Debussy para cello e piano!!! o que eu mais gostei foi a participação especial dos carros, das motos, das marteladas do vizinho e dos assobios dos que passavam pelo centro de cidade!!! tornou aquela uma versão única da Sonata!!! penso que umas das razões da música ser sempre nova é porque as músicas paralelas sempre acrescentam novos matizes a ela!!! parabéns pela tua pesquisa!!! quisera eu que pudesse ainda ouvir mais afiadores de facas na cidade, ou tocadores de triângulo em Fortaleza… :)

  2. Marta! O afiador de facas… Logo quando cheguei a Porto Alegre, pude fazer o registro em vídeo de um deles no bairro Santana. Mais recentemente, tirei foto de outro no Bom Fim. E este fim de semana, olha quem encontrei em Capão da Canoa! Um vendedor de casquinha, “o chegadinho gaúcho”: http://instagr.am/p/BRPfJ

    Bjs,

    Thaís

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