Pesquisa, Música

Humano, máquina, natureza

Algumas canções não saem da minha cabeça enquanto reviso a bibliografia. No momento, duas tocam ao mesmo tempo: The Man Machine, do Kraftwerk, e Human Nature, da Madonna. Além disso, os versos da Bjork chegam atravessando para definir o sentimento de estar debruçada sobre esse tema de pesquisa.

“If you ever get close to a human and human behavior, be ready to get confused…”

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Eventos, Pesquisa

Para ouvir a bibliografia

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Em novembro, teremos a oportunidade de assistir no Brasil a conferências de importantes autoras e autores do campo dos sound studies. Ana Maria Ochoa, Cathy Lane, Georgina Born e Rodolfo Caesar estão entre as principais palestrantes com presença confirmada no Sonologia 2016 – Out of Phase. O evento está sendo organizado pelo NuSom, núcleo de pesquisas da USP.

A chamada de artigos foi lançada e recebe até 5 de junho resumos expandidos em inglês, idioma do evento. A ideia é conectar a produção latino-americana a outros circuitos internacionais. São bem vindos pesquisadores de diversos campos de estudo: música e tecnologia, antropologia, filosofia, estudos de gênero, mídia, performance e estudos culturais, além de música contemporânea, popular e experimental.

Será que a gente se encontra por lá?

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Leituras, Pesquisa

O encontro: Doreen Massey {1944-2016}

Doreen Massey em Madri, junho de 2012. (Foto: DarkMoMo CC BY-SA 3.0)

Doreen Massey em Madri, junho de 2012. (Foto: DarkMoMo CC BY-SA 3.0)

Fui surpreendida ontem nas redes sociais com post do geógrafo Rogério Haesbaert sobre a partida de Doreen Massey. Esperava que pudéssemos ainda contar com a sabedoria dela por muitos anos mais. Apenas no ano passado consegui ler de capa a capa seu livro Pelo espaço: Um nova política da espacialidade, que transformou minha imaginação sobre o espaço. Para Massey, o espaço é o encontro de histórias. Um espaço aberto, em devir, inesperado, vivo e desafiador, tão impossível de representar quanto o tempo.

Ao mesmo tempo em que veio ao meu socorro, me ajudando a dar palavras aos sentimentos de incômodo que afloraram quando estava lendo Bergson filosofar sobre a espacialidade, Massey me fez perceber pontos cegos nas formulações de autores como Michel de Certeau. Precisamos estar atentas até nas leituras mais prazerosas!

Ainda em 2005, quando esteve em Fortaleza para o Encontro da Anpege – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia, perguntaram a ela o que achava da geografia que se fazia no Brasil. “Teria que ler mais sobre isto. Não conheço bastante. Mas penso que o que há de mais importante que se faz aqui, como em outros países, é não copiar os modelos estrangeiros. Desenvolver algo próprio.” Fica a grande inspiração.

pelo-espaco-doreen-massey-408301-MLB20305325510_052015-O“O espaço é tão desafiador quanto o tempo. Nem o espaço nem o lugar podem fornecer um refúgio em relação ao mundo. Se o tempo nos apresenta as oportunidades de mudança e (como alguns perceberiam) o terror da morte, então o espaço nos apresenta o social em seu mais amplo sentido: o desafio de nossa inter-relacionalidade constitutiva – e, assim, a nossa implicação coletiva nos resultados dessa inter-relacionalidade, a contemporaneidade radical de uma multiplicidade de outra, humanos e não-humanos, em processo, e o projeto sempre específico e em processo das práticas através das quais essa socioabilidade está sendo configurada.” Último parágrafo do livro.

Abaixo, reproduzo as notas de Haesbaert. Ele ajudou a traduzir Pelo espaço para o português e assinou a apresentação da edição brasileira, em que conta parte da história desse encontro. Fundamental, porque é disso que tudo se trata.

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A notícia do falecimento de Doreen Massey vem só uns poucos meses depois da morte de Edward Soja, outro grande pensador do espaço na contemporaneidade. Um dia triste para a geografia… embora ontem David Harvey tenha levado centenas de pessoas à Cinelândia, no Rio de Janeiro, para a aula pública de encerramento do curso “Cidades Rebeldes“. Salve o espaço!

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Leituras, Pesquisa

A importância da memória de um som na hermenêutica

Estava lendo aqui uma entrevista com Jeanne Marie Gagnebin sobre a obra de Walter Benjamin, da qual é dedicada pesquisadora. Chamou minha atenção – e destaco aqui – um trecho em que Gagnebin explica os problemas de se usar palavras (que, por mais simples que sejam, encerram conceitos) sem compreender o contexto a partir do qual elas foram articuladas – neste caso, o espaço-tempo da produção benjaminiana.

“[É] uma questão hermenêutica muito mais ampla. Ela se coloca cada vez que lemos ou estudamos textos escritos numa outra época e, igualmente, como você ressalta, em outra língua, porque se pensa de maneira diferente segundo as línguas que se fala… Por exemplo, se pensa diferente se você tem três gêneros (masculino, feminino, neutro) ou dois (masculino, feminino) ou nenhum. Ou se se fala do ‘ser’ segundo a modalidade de ‘ser’ e de ‘estar’, ou somente de sein ou d’être. Cada língua tem seus pressupostos metafísicos… e, também, históricos. A palavra ‘Volk’ (povo) em alemão não pode ser usada mais de maneira inocente depois do nazismo e de ter ainda, na memória auditiva e afetiva, a voz de Hitler.”

Benjamin, prestenção

Pesquisa de material escrito deixa algumas brechas. Uma maior consideração não só das práticas que envolvem o que se estuda, mas também da dimensão sonora dessas práticas, pode enriquecer investigações em aspectos fundamentais. Como, por exemplo, aquilo que a palavra falada evoca, invoca, conjura.

Além disso, esse trecho da fala de Gagnebin também me lembra que hoje é um ótimo dia para estudar um pouco de alemão! E para dizer a vocês que, já há alguns meses, estou tentando me preparar para uma conversa especial sobre idiomas, sonoridades e cultura aqui para o blog. Espero que o transe do trabalho me deixe realizar isso em breve.

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Leituras, Pesquisa

Um dia de cada vez

 

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Traduzi e adaptei um pouco às minhas necessidades os onze mandamentos que Henry Miller listou para o biênio 1932-1933, quando estava escrevendo o que seria seu primeiro romance publicado, “Trópico de Câncer”. Eles vêm bem a calhar quando se está começando o terceiro ano do doutorado, em que temos que começar a resumir as explorações teórico-metodológicas para entrar de vez a campo, e escreverescreverescrever.

Tenho escrito muito menos sobre a investigação aqui no blog do que o fiz durante o mestrado. Por outro lado, praticamente toda a tagarelice é absorvida pelos ouvidos dos meus colegas de turma na Comunicação da UNISINOS – e eu os agradeço muito por isso! Além dos papos cara-a-cara, desde outubro do ano passado várias versões do projeto de pesquisa têm andando pelas mãos de leitores de confiança, que têm me retornado dúvidas e críticas fundamentais.

Quando recebo os comentários, refaço o texto e já envio para outro pequeno grupo de amigos da pós-graduação, ex-professores e pesquisadores interessados no tema. Isso tem feito com que eu tenha cada vez menos apego a cada versão do projeto, me atendo principalmente aos pontos fortes ou fracos. O melhor de tudo nem é que o projeto esteja se tornando mais compreensível para os outros e mais consistente para encarar a banca de Qualificação, daqui a alguns meses. O essencial é perceber que eu mesma estou pensando mais claramente!

“Você precisa de um círculo de pessoas que (…) reagirá adequadamente à etapa em que seu trabalho está.” (Howard Becker)

Como está claro, não inventei nada disso. Estou apenas tentando seguir a dica do sociólogo Howard Becker, que descreve toda essa dinâmica em seu livro “Truques da escrita”.

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Para ele, “o ato de escrever pode moldar seu plano de pesquisa”. O que posso dizer é que, pelo menos aqui, parece estar funcionando. Não interessa se passei os últimos meses mergulhada em filosofia ou em teorias bem densas: o estilo carismático e sem frescura de Becker, com foco nos desdobramentos mais práticos e imediatos do fazer científico, é um convite – e um roteiro! – para desatar os nós que atravancam a pesquisa.

Há outros motivos para ler Becker, como o fato de ele descender da Escola de Chicago de Robert E. Park. “Casa” do interacionismo simbólico, serviu de modelo para os estudos urbanos em geral e representa um modo de fazer pesquisa pouco preso a ortodoxias metodológicas – e com uma boa pegada antropológica.

Se isso não bastar de cartão de visitas, Becker também empreendeu várias investigações sobre o mundo da arte e da música. Ele mesmo tocou piano em bandas que se apresentavam em clubes noturnos na Chicago do pós-guerra. É um grande fã de música brasileira, de Tom Jobim a Chico Buarque. O site Letras e músicas é o segundo da lista de favoritos em sua página pessoal, só ficando atrás de Jazz Places, com endereços por todos os Estados Unidos.

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O aspecto mundano dos pesquisadores da Escola de Chicago é uma coisa de louco! O próprio Becker contou histórias curiosíssimas
em uma conferência que fez no Brasil em 1990, publicada na revista Mana. Não deixem de ler! Mas agora, com licença, que ainda tenho que praticar um pouco mais de escrita acadêmica hoje.

Caso se interessem pelo livro “Truques da escrita”, aqui está o sumário e um trecho com as primeiras páginas. E boa pesquisa!

 

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Registro

Bate o sino, andarilho…

Vendedor de cavaco chinês em Recife, dezembro de 2015

Passando o Natal em Recife, minha querida amiga Ágatha me envia este presente: o registro da passagem de um vendedor de cavaco-chinês – o cavaquinho, como também se costuma chamar na capital pernambucana. Na Valdemar Neri com a Sideral, Boa Viagem-Setúbal. Sempre grata!

Um feliz 2016 a todos os ouvintes e leitores do Escuta Nova Onda!

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