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Como usar bem o seu tempo

thaisaragao:

Como este é um blog de pesquisa, aí vão dicas de como empreender melhor a investigação. Bom trabalho!

Originally posted on Sobrevivendo na Ciência:

Inspirado por uma conversa que tive com alunos em um excelente evento em junho, decidi deixar para mais tarde um post sobre o gerenciamento do tempo. Não, brincadeira, vou escrever sobre isso agora mesmo.

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Arte, Gravação, Internet

Visual-áudio: noção e prática

 

Captura de tela 2015-06-30 09.14.45

Surpresa grata: as fotos com áudio que a NatGeo vem postando em seu perfil no Instagram. Isso porque as opções de trilhas musicais nos vídeos podem incomodar bastante quem se interessa pelo caráter documental do material apresentado (e aqui estamos falando da apreciação do material inteiro, em sua integralidade). Assim, unir à fotografia o som do lugar onde ela foi tirada é como revelar um segredo. Sem precisar, porém, abrir mão da fotografia, que é das expressões maiores da revista desde 1905.

Alguns fotógrafos ligados à publicação são entusiastas das gravações de campo (field recordings), e bastante dispostos a apresentá-las juntamente com suas contrapartes visuais. É o caso de John Stanmeyer, autor da imagem acima e da World Press Photo of the Year 2014. Ele propõe um nome para a reunião: visual-áudio. “Não gosto muito da palavra multimídia. Imagens em movimento com som são filmes, não importa o quão curtas ou longas. A combinação de sons com imagens paradas não é multi. No máximo, é dual-mídia”, defende.

Stanmeyer: imagens com o som ambiente do evento permitem ao espectador outras percepções sensoriais.

Grande apreciador do trabalho do etnomusicólogo Alan Lomax, Stanmeyer encontrou no que chama visual-áudio o melhor formato diante das pressões da presente era de slideshows. No início, sentiu-se meio que vítima da obrigação de ter que preparar elaboradas apresentações com still e áudio – frequentemente música. Depois, passou a agregar uma narrativa verbal, para deixar o resultado mais significativo para os espectadores e para si mesmo. Mas as gravações de campo se revelaram um interesse à parte.

“Realmente sinto que a combinação de fotografia (ou até mesmo uma série de imagens) pode ter uma apresentação expandida se as imagens também foram mostradas com o som ambiente do evento, permitindo ao espectador se envolver com outras percepções sensoriais. Mas tem que funcionar”, alerta. Para isso, o som tem que coincidir de ser tão interessante quanto o visual. E tem que ser bem captado. “Áudio ruim pode arruinar qualquer projeto.” Por esse motivo, ele compartilha muitas dicas em seu blog – onde, a propósito, encontrei essas reflexões dele.

Mas o visual-áudio não precisa ser apenas para profissionais.

Há dois anos, baixei em meu smartphone o aplicativo Soundgramr, de muito simples uso. Ele rendeu uma bela coleção de fotografias que guardam consigo alguns segundos de som gravados no momento do clique. O desenvolvedor do Soundgramr é um brasileiro, João Victor Vital, que foi super atencioso e atendeu ao convite do blog para falar um pouco sobre a criação do app.

Como teve a ideia de casar a foto com o som do momento em que foi batida? Quais foram suas influências, seja no campo das artes, do entretenimento ou da tecnologia?

João Victor Vidal (Soundgramr)João Victor – Tem um filme italiano (“Vermelho como o céu”) que fala de um menino cego que usa um gravador pra encenar uma história. Acho que o filme me fez pensar sobre as possibilidades de se contar uma história através de sons. A arte de Miranda July também foi uma influência. Mas na hora de fazer o app, eu tinha dois propósitos que foram guias no desenvolvimento:

1) Nostalgia. Acho que o som dá uma dimensão diferente à foto, um outro tipo de viagem na memória diferente do Instagram. É por isso que, além do som, os filtros que vinham no Soundgramr foram todos elaborados pra serem bem “quentes”, bem retrô, mais até que o Instagram;

2) Ser prático. Geralmente as pessoas perguntam “por que não fazer vídeo?”, mas fazer um bom vídeo é mais difícil e menos prático que tirar uma boa foto. Por isso a captura do Soundgramr é toda feita em um único click, da forma mais eficiente possível.

Uma das influências para criar o Soundgramr: o filme “Vermelho como o céu” (Itália, 2006, Dir.: Cristiano Bortone)

Uma das influências para criar o Soundgramr: o filme “Vermelho como o céu” (Itália, 2006, Dir.: Cristiano Bortone)

Também queria entender o aplicativo no contexto da sua trajetória como desenvolvedor – onde se capacitou, como trabalha, que metas tinha na época.

JV – Sou formado em computação, trabalho com programação. Mas aprendi a fazer apps por conta própria. Queria tentar uma carreira independente criando apps, como alguns poucos desenvolvedores conseguem. Ainda não consegui. De todo modo, tem o prazer de transformar uma ideia em produto. É um desafio ir até o fim e conseguir sair do outro lado com um produto pronto. Principalmente quando se está fazendo tudo sozinho, que foi o meu caso. Fiz outros apps, como o Tinge (também de fotografia).

Que desafios encontrou no processo de desenvolvimento mais particularmente ligado à parte sonora?

JV – A maior dificuldade técnica foi, e continua sendo, como compartilhar as imagens com som. Nada muito especial com relação à parte sonora.

Soundgramr: mais artístico e menos comercial do que João Victor Vital imaginou inicialmente.

icon

Em termos tecnológicos, o que potencializou e também restringiu essa ideia? Ficou muito diferente do que você pensou?

JV – O resultado ficou próximo do que eu queria. Mas ao mesmo tempo é um projeto mais artístico e menos comercial do que eu imaginava inicialmente. Na época que lancei o Soundgramr, surgiram apps como Vine e vídeo no Instagram. Foi o começo da onda do compartilhamento de vídeo. O Soundgramr não tinha recurso de compartilhamento e isso fez falta. Percebi que o compartilhamento é importante. Fazer um app minimamente bem sucedido é difícil. Fiz vários apps, com resultados medianos. É difícil de alcançar as pessoas, mais difícil ainda de cativar. O Soundgramr apareceu em alguns sites brasileiros, que foi bacana e deu alguma visibilidade. Imagino que por isso também, praticamente todos os downloads eram brasileiros. Mas levando em conta o tempo e esforço gastos no processo, desse e de outros apps, o retorno é nulo. É frustrante. Além disso, o Soundgramr é um app com um perfil meio artístico, o que torna mais difícil de se conseguir algum retorno direto dele.

Compartilhamento é o tipo de recurso adicional que o aplicativo pode ganhar no futuro?

JV – Sim. Comecei também a trabalhar numa ideia de poder mixar soundgramrs pra formar uma história.

Quando teremos o Soundgramr relançado?

JV – Não sei. Quem sabe no ano que vem, ou quem sabe uma versão sem muitas novidades antes.

* * *

Enquanto aguardamos, podemos pensar um pouco mais sobre a noção e a prática do visual-áudio. Trouxe alguns trechos traduzidos do pensamento de John Stanmeyer, ilustrado pelo trabalho do Emerson Machado, meu colega no Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação da UNISINOS (e que acaba de passar pela qualificação de mestrado!). Emerson está estudando o fotográfico no projeto Magnum In Motion e, em 2007, realizou “Rastros e Sombras”, seu primeiro trabalho autoral, apresentado no Festfotopoa. As imagens do Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre, foram captadas durante o mês de outubro e os sons, em novembro.

Vamos curtir o resultado e saber o que mais Stanmeyer tem a dizer! =]

John Stanmeyer: “Então como deveríamos chamar a combinação de sons com still, em que as gravações de áudio assumem uma igual ou possivelmente maior importância que o visual? Eu prefiro Visual Áudio. Muito mais cativante. Uma essência mais verdadeira em que sons criam imagens na mente.”

“Num nível profissional, sou um fotógrafo. O poder da imagem de still durará por todo o sempre. Qualquer um que queira debater essa realidade até virar uma cola derretida pode fazer isso para a alegria de seu coração. Faça isso, defenda suas teorias para uma maçaneta de porta, mas não para mim. Esse tipo de discussão é, de longe, uma das maiores perdas de tempo que existem nesse campo da arte e nessa profissão. A discussão deveria se dar sobre o que podemos fazer com todas as formas de comunicação.

Num nível pessoal, sou um viciado em gravação de campo. Quando estava morando na Itália, no meio dos anos 80 – usando uma câmera de uma forma completa, claramente diferente… moda –  eu vagava pelos arredores de Milão fazendo gravações em um gravador macrocassete, passando para um estéreo cassete da Sony, uma vez me dando conta de que estava obcecado pelos fascinantes sons do som. Usando uma legião de microfones ao longo dos anos, mais ou menos há sete anos eu me deparei com microfones binaurais para gravação de espaço auditivo dimensional, mudando dramaticamente não apenas como eu gravava áudio a partir de uma perspectiva do som espacializado, mas também me permitindo ser um fotógrafo ao mesmo tempo.

Eu pirei.”

“A discussão deveria se dar sobre o que podemos fazer com todas as formas de comunicação.” (J. Stanmeyer)

“Gravações de campo [ajudam] a expandir mentes e corações a partir do poder que som e visão têm de capturar a consciência.”

“Este blog [não deixem de ler o blog de John Stanmeyer] é para compartilhar esses sons nos quais muitas vezes prestamos atenção enquanto olhamos pelo estreito quadro de uma câmera, e que nos permitem adicionar percepções à experiência, para além do enquadramento da câmera.”

* Para o resultado desejado, a audição de gravações binaurais deve ser feita com fones de ouvido.

 

 

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Gravação, Internet

Novas mídias, antigos pregões

Um misto de game, documentário audiovisual e aplicação web que acaba de ser lançado na internet, Pregoneros de Medellín permite que façamos passeios em estilo street view/POV pela segunda maior cidade da Colômbia, descobrindo pregões de rua tão numerosos quanto diversos – o que faz jus à musicalidade do povo que botou a cúmbia no mundo. Descobri esse projeto seguindo os passos de Thibault Durand, engenheiro egresso do Instituto Nacional de Ciências Aplicadas de Lion (INSA) que antes andou por Fortaleza, onde deixou como legado um sistema de mapa de ônibus que é uma verdadeira mão na roda.

Em Medelim, ele se uniu à jovem e premiada fotógrafa e realizadora audiovisual Ángela Carabalí para dirigir esse trabalho sobre vendedores ambulantes que usam a própria voz para anunciar coisas de comer pelas ruas da cidade. A tela inicial apresenta “um percurso virtual pelo universo laboral e pessoal daqueles que entenderam que o amor e os clientes são seduzidos pelo ouvido.” Bastante a ver com nossa pesquisa sobre o chegadinho, né?

Os pontos altos dessa realização são desenvolver um aplicativo de nova mídia orientado para a experiência acústica e mergulhar no social a partir do sonoro. Ela abre pelo menos dois níveis para o mundo particular dos apregoadores. O primeiro é o ponto de escuta/vista das ruas, uma animação que utiliza foto stitching e um desenho de som estereofônico que vai nos dando a impressão de nos aproximarmos ou nos distanciarmos das fontes sonoras, durante o percurso controlado pelo mouse. (Essa parte mais técnica será bem detalhada adiante.)

Indo da experiência mais interativa para a mídia mais tradicional, passamos do centro à periferia urbana.

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Para compor o resultado final, foram usados um Jeckling Disk entre dois microfones e uma câmera GroPro. Ao todo, foram 329 gravações diferentes, entre áudio e vídeo. A equipe levou cinco dias para cobrir mais de 80 trechos de rua da região nas imediações da Plaza Botero, Parque de las Luces e Parque Bolivar. No centro dessa área está a estação Parque Berrío, que recebe o maior número de usuários de todo o sistema do Metrô de Medellín.

A parte “game” é ter que achar nas ruas as aparições de cinco figuras ambulantes. Esse encontro destrava a exibição de documentários que nos levam ao segundo nível. A partir daí, esses vendedores se destacam do emaranhado polifônico do centro urbano e ouvimos um pouco mais da sua voz. Além de apregoar, também vão nos contar mais sobre o que os levou até ali: suas vidas, seu cotidiano, sua família.

Nessa mudança de uma experiência mais interativa para um formato de mídia mais tradicional, acabamos tendo acesso a outros espaços da cidade. É acompanhando os apregoadores até suas casas que passamos a ver a cidade a partir de suas margens, as partes altas de Medelim, para onde a cidade cresceu. Essa vista do alto e a partir da periferia é recorrente nos web-docs que encontramos pelo caminho, nos percursos centrais. A experiência se completa quando acaba a busca por cada parte das cinco mini-trilogias, uma para cada personagem ambulante.

Entre as iguarias que os protagonistas – La Jale, Pajarito, Gaucho, Líder e os garotos do grupo Papá Venegas – vendem pelas ruas da cidade, estão algumas curiosidades como a gelatina de pata, a mazamorra e o doce gaucho argentino, talvez mais comuns em países da América hispânica. Ainda comuns, há sempre o risco de algumas dessas comidas estarem em vias de desaparecer. Mais um ponto para Pregoneros de Medellín: o registro dessas práticas, importante até para entender alguns laços com outros espaços-tempos.

“Desde os primeiros dias em que estávamos pensando o web-doc Pregoneros de Medellín, queríamos realizar uma caminhada de rua virtual por causa do valor narrativo disso, não por extravagância”, explica Durant. “Nunca pensamos tanto em: ‘Como vai ser a experiência do usuário? Que tipo de interatividade podemos oferecer a eles?’ Nossa história era a experiência, e a experiência era a história. E a história de Pregoneros de Medellín é: passeie pela rua, curta a paisagem sonora urbana, seja surpreendido pelos apregoadores e conheça esses caras.”

“Queríamos realizar uma caminhada de rua virtual por causa do valor narrativo disso, não por extravagância.”

Recorrido con Lider

Thibault é um entusiasta de compartilhar como se faz as coisas: “sharing rocks!” Por isso ele deixou o código do trabalho à disposição e escreveu um post detalhando todo o processo criativo. Nele, comenta como, ao longo de dois anos, o projeto foi passando por pesquisas, experimentações, erros e acertos, até chegar ao modo como finalmente foi realizado.

Dá muita dica de aplicativos, explica por que web-documentário não pode ficar só na mão dos profissionais do audiovisual (a experiência do usuário fica capenga, por exemplo) e como fizeram para alcançar um vídeo linear, em que o espectador controla a velocidade da caminhada sem que a ideia de continuidade se perdesse.

Como é o que mais nos interessa, aí vai traduzida a parte em que o desenvolvedor fala especificamente do desenho de som!

Sound design

[por Thibault Durand]

O desenho de som é uma parte crucial do web-documentário. De fato, uma parte da promessa da experiência é: “curta a paisagem sonora urbana, seja surpreendido pelos vendedores”. Investimos muito tempo de pesquisa nisso.

Queríamos estar imersos nas ruas ao replicar, o melhor que podíamos, toda a diversidade de sons que existe no centro de Medelim. Outra parte fundamental do desenho de som é que ele dá a completa continuidade quando você troca de rua. Quando você está carregando uma rua nova, os sons se mantêm.

Gaucho dia 1

Tecnicamente, temos que confessar que não tínhamos a menor ideia de como fazer isso. Mal conhecíamos Web Audio API, estávamos apenas mexendo com uns protótipos. Rapidamente fizemos alguns, com dois ou três sons tocando em volumes diferentes, ajustando esses níveis dependendo da posição do scroll do usuário. Mas era coisa básica, e não sabíamos como dimensionar aquilo com mais sons e mais ruas (mais de 80).

Foi com esse princípio básico em mente que descobrimos esse projeto fantástico: Sounds of Street View. Os caras da Amplifon realmente fizeram um trabalho impressionante criando uma interface onde você pode adicionar som a uma caminhada em Google Street View. Vocês têm que dar uma olhada nesse projeto.

E o melhor é que é opensource, então escavamos o código e descobrimos que esses caras estavam usando as coordenadas de GPS para geoespacializar os sons e calcular a distância entre eles e a posição do usuário. Parece óbvio mas, até que tenha a ideia, você fica completamente no escuro.

Com esse conceito fundamental e mais uns outros vindo do Sounds of Street View, começamos a construir nosso próprio mecanismo para os sons e a pensar em como capturá-los nas ruas.

Trabalho de campo no centro de  Medellín, retomando o processo de gravação

Trabalho de campo no centro de Medellín, retomando o processo de gravação

Depois de muita tentativa e erro, chegamos à conclusão de que haveria dois tipos de sons:

  • Sons ambientais como no projeto Sounds of Street View, que entrariam em fade in/outrespeitando um fator 1 / distância;
  • Sons pontuais que povoariam a cena e a tornariam mais real, entrando em fade in/out, respeitando um fator 1 / distância*distância.

Os sons ambientais nos dão a ambiência de background das ruas. Duram entre 1–2 min antes de entrar em loop. Exemplo:

Os sons pontuais nos dão detalhes: os pregões dos vendedores ambulantes, um músico tocando, o som de uma loja. São mais curtos (5–20 seg). Exemplo:

Gravando

A gravação sonora foi feita ao mesmo tempo que a do vídeo para garantir que o som ambiente se corresponderia com o que você vê na imagem. (Em alguns dias, poderia ter um monte de gente, carros, lojas abertas… e no dia seguinte, não.) Estávamos gravando primeiro com a GoPro e imediatamente depois capturando os sons das ruas. Para os sons ambientais, usamos um Jecklin Disk para gravar em estéreo. Gravávamos sons ambientais a cada meia hora, mais ou menos.

Gravando sons ambientais com o Jecklin Disk

Gravando sons ambientais com o Jecklin Disk

Os sons pontuais foram gravados em mono e, como veremos adiante, integrados ao ambiente por nosso programa de áudio.

Editor de áudio UI

Agora que tínhamos nossa metodologia, precisávamos construir um fluxo de trabalho para ser eficiente. Criamos uma interface por cima do web-documentário para que fôssemos capazes de desenhar facilmente o ambiente sonoro:

Sound editor UI

Sound editor UI

Por meio do editor de áudio você pode adicionar sons, arrastá-los e colá-los (drag&drop) para ajustar a posição deles, definir o nível de decibéis (DB), especificar um volume máximo, deixar um som solo, ou colocar todos os outros sons em mudo, além de escolher se esse é um som ambiente ou um som pontual – o que vai afetar a maneira como o volume será calculado de acordo com a distância do usuário até som.

Você pode ver esse editor em ação nesse screencast:

(TECH) Você pode olhar os arquivos Sound.js e Sounds.js no GitHub se quiser escavar o código. O algoritmo é bem simples:

  • quando o usuário se move, chamamos a função updateSounds, que faz todos os sons das ruas entrarem em loop, e chama para cada som ativo a função updateSound;
  • a função updateSound cuida de ajustar o volume, dependendo da posição do usuário na rua, e para os sons pontuais chamará o updatePan, que usa o método Web Audio API pos() para localizar o som à esquerda ou à direita na mixagem em estéreo.

No web-documentário todo, tivemos 329 gravações diferentes. Fizemos 5 dias de gravações no centro de Medellín para gravar tanto vídeo quanto áudio.

Para concluir essa parte do artigo, precisamos dizer que fizemos uma escolha de realização no desenho de som: nós enfatizamos os pregões dos vendedores no processo de sound design, para podermos focar a atenção do usuário neles. Mesmo que tenha contaminado um pouco todo o ambiente, queríamos cumprir com a promessa de primeiro encontrar os ambulantes por meio dos sons.

Leia o post completo.

Conheça o projeto Pregoneros de Medellín.

[Fotos: Henry Jimenez e Andrés Zea]

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Arte, Gravação

Pescando sons subterrâneos

marcoantoniofariasscarassatti_38751Que cartografia é possível abaixo do nível da pavimentação urbana? Que relação haveria entre bueiros, rios, situacionismo, filosofia islâmica e “Plásticas Sonoras”?

A primeira conversa de fôlego do ano para o blog foi com Marco Scarassatti, autor de livro sobre Walter Smetak e professor da UFMG. Ele acaba de lançar, por selo independente, um trabalho que deriva de andanças auscultadoras pelas ruas de Belo Horizonte. O papo começa por aí.

 

Como soube dos rios canalizados da cidade? Como, por que eles chamaram sua atenção?

Descobri numa deriva pela cidade. Eu havia comprado uma passagem de ônibus pra Campinas num sábado a tarde, porém o ônibus só sairia tarde da noite. Resolvi sair, me deixar levar pelos sons da cidade. Numa das ruas em que virei, na Rio Grande do Norte, escutei um som vindo de baixo da terra. Me aproximei de uma grade que estava no meio da rua e me surpreendi com o que vi. Depois disso comecei a prestar atenção e percebi que a cidade toda possuía grades do mesmo tipo espalhadas pelas ruas.

Que rios ouvimos nas duas faixas de “Rios Enclausurados”, trabalho lançado agora pela Seminal Records?

Rios Enclausurados é uma edição de sons de vários córregos de Belo Horizonte, ali temos sons da própria Rio Grande do Norte, da Avenida dos Andradas, da rua Sagarana, da Prudente de Moraes entre outros.

Aparentemente, a partir da gravação pode-se ouvir o curso das águas a partir da galeria, abaixo do passeio, e não da calçada. Como se posicionou para a tarefa?

Quando comecei a gravar eu posicionava o gravador nos vãos das grades, normalmente fazia isso sozinho e, em algumas ruas era perigoso. Depois, em 2012, comecei a gravar com o Fernando Ancil, um artista visual amigo, que fez comigo a instalação sonora na avenida Afonso Pena. Aí começamos a descer o gravador com um fio de nylon amarrado nele. Parecia que estávamos pescando, pescando o som. Mas muitas vezes gravei em planos distintos, ora mais próximos d’água, ora mais próximo do asfalto.

Que equipamento utilizou – e em que medida considera essa questão importante?

Gravei com diferentes gravadores, comecei com o Zoom, tanto H4n, quanto o H2n. Depois usei também o Roland R-26. A escolha do gravador é bem importante, no caso específico desse trabalho. O gravador digital, nesse padrão de tamanho, facilita a entrada pelos vãos da grade.

“A cidade não escuta o rio. Mas dali de dentro do tubo, escuta-se a cidade.”

Pode falar um pouco sobre esses entornos no momento das gravações?

Os momentos, os entornos, os contextos de gravação foram sempre variáveis. O interessante é pensar que a cidade não escuta o rio. A frequência da sua sonoridade é mascarada pelos sons urbanos. O som do rio é quase um ruído branco, confinado dentro de um tubo de concreto. Mas dali de dentro do tubo, escuta-se a cidade. E a captação desses sons externos ao tubo aparenta ser de uma escuta com certa difração, como o raio de luz que incide sobre a água.

Pergunto porque, enquanto estava escutando, comecei a imaginar mais esse entorno. Na primeira faixa, além do som das águas, em algum momento há um latido de cachorro, algumas batidas mais compassadas de alguma atividade humana próxima. Na segunda, há falas e outros sons à distância que podiam ser aviões, carros ou mesmo trovões. Mas também acontece de o som do rio ser tão forte e contínuo que, por vezes, a mim parecia que ouvia estática em uma estação de rádio, ou que o próprio som do rio agora podia, ele mesmo, ser de um avião, ou de uma grande tempestade.

É interessante essa percepção que você descreve. Delineia uma cena de um certo abstracionismo sonoro, talvez causado pela intensidade e pela complexidade dessa sonoridade entubada. E esse tubo é também um ressonador dos sons do asfalto, o que cria variações quase imperceptíveis desse contínuo. De vez em quando uma sonoridade irrompe esse ciclo e se delineia como algo figurativo, algo identificável, um latido, uma buzina, uma fala. Entretanto isso se desfaz. Se pensarmos o rio como um ser vivente, esses momentos eu imagino que sejam aparições de uma realidade possível, como se ele, o rio, fosse o prisioneiro da caverna do Platão. Imagine uma caverna, com uma pequena entrada de som… deve ser angustiante ser rio, nessas condições.

“Como se ele, o rio, fosse o prisioneiro da caverna do Platão. Imagine uma caverna, com uma pequena entrada de som…”

Marco Scarassatti gravando rios enclausurados de BH

Marco Scarassatti pescando sons de rios pelas ruas de BH

 

O que espera, em geral, de seus ouvintes com esse trabalho?

Eu já pensei em dar o nome Eu grito para que me escute, para esse trabalho. De alguma forma, quero reproduzir a sensação do que foi pra mim a descoberta de uma masmorra dentro da cidade, a descoberta de um prisão, uma clausura em que um prisioneiro está ali esquecido, pretensamente invisível e silenciado por um projeto urbanístico. Ele sequer pode ser visitado. Ele está privado da convivência com a cidade. Mas quando chega-se perto das grades, percebe-se logo sua potência e um encantamento sublime advindo da ideia de que a qualquer ele pode com sua força quebrar tudo e voltar a decidir o seu curso.

Você conhece o projeto de mapeamento colaborativo (não sonoro) Rios de São Paulo? Também aborda a invisibilidade dos rios urbanos.

Não conhecia. Aqui em Belo Horizonte tem a artista plástica Isabela Prado. Para a exposição “Entre rios e ruas”, ela gravou os rios também. Conheci esse importante projeto apenas recentemente, mas ele já acontece há um tempo e também se detém a gravar e difundir os sons desses rios canalizados.

Você também convida pessoas para derivas sonoras previamente organizadas. Como se dão e em que você fundamenta essas atividades?

Em princípio a ideia da deriva esteve ligada a minha aproximação com a cidade de Belo Horizonte, foi uma maneira de conhecê-la, pelos sons que me atraiam. Sem gravar nada, apenas me deixei passar pela experiência. Evidente que a inspiração maior veio com a teoria da Deriva da Internacional Situacionista, que o Guy Debord publicou. Juntei a isso as práticas de soundwalking feitos pela Hildegard Westercamp, com a diferença de que não havia trajetos previamente pensados. Posteriormente coloquei em prática com um grupo de bolsistas de um projeto de formação docente, que eu coordeno, o PIBID.

Escolhi um lugar que eu já conhecia pela diversidade de sons, a Praça da Estação. Combinamos um encontro lá. Primeiramente sugeri que cada um do grupo se colocasse a ouvir os sons da praça e se deixar levar por aquele que chamasse mais a sua atenção e, que a partir daí, se lançasse pelo tempo que quisesse à experiência de ir investigando a cidade pelos sons atrativos. Nesse primeiro momento não gravamos, para não ficarmos reféns da simulação de escuta que o microfone faz, tampouco presos a ideia de que tínhamos que produzir algo. Eu queria que eles vivessem essa experiência.

Guy Debord e situacionismo: inspiração maior

Guy Debord e situacionismo: inspiração maior

Assim que todos voltaram, os reuni para discutir que trajetos foram aqueles que cada qual fez e propus que refizéssemos cada trajeto, agora de posse do gravado digital, como se a experiência da escuta tivesse deixado um lastro de sonoridades pelas quais iríamos percorrer. Refizemos cada trajeto, gravamos e depois com todo esse material fizemos um postal sonoro da Praça da Estação. Não era apenas um retrato estático desses sons, era a junção dos movimentos e escutas desses corpos envolvidos, tornou-se um postal complexo, com várias escutas, vários trajetos na mesma praça.

Nessa mesma época eu vinha desenvolvendo uma ideia antiga que eu tinha que era a criação de dispositivos de escuta. Eles são objetos relacionais que são montados, na sua maioria, em capacetes de segurança. Cada dispositivo tem uma espécie de filtragem distinta do outro. São canos de PVC, cifões, chifres, abafadores, cones. Esses dispositivos foram desenvolvidos para serem utilizados nas derivas sonoras e também em concertos de música. Como eles alteram a escuta, não só pelo filtro, mas também porque agregam à nossa escuta um extensor que está encostado em nossa orelha e por isso promove também uma escuta pelo meio sólido, por essas alterações, eu imagino que todo nosso aparelho perceptivo se engaja na adaptação a esse dispositivo, nos tornando um grande ouvido. Dessa forma, nas derivas sonoras, o capacete faz com que estejamos inteiramente mobilizados para a escuta.

Dispositivos de escuta de Marco Scarassatti

Dispositivos de escuta para derivas sonoras

“Rios Enclausurados” surge no âmbito de um projeto maior, de cartografia sonora de BH. Que outros sons da cidade foram selecionados, e como acontece essa escolha?

A ideia da cartografia sonora da cidade pressupõe pensarmos a escuta como uma ferramenta de observação e pesquisa, podemos pensar e apreender o mundo pelos sons. Um espaço se constitui por elementos que se relacionam, se intervalam, elementos com os quais interagimos. Se entendemos os sons como alguns desses elementos, podemos pensar que um espaço, ou uma apreensão do que é um espaço pode se dar pelos sons que o constitui. Cartografar é mapear esses sons, esses trajetos, desvios, atalhos, isto é, é criação de um outro espaço, imitativo, reduzido, simulado em que esses sons possam ser representados. Na época imaginava fazer uma cartografia sonora envolvendo desde os sons dos subterrâneos de uma cidade até os sons aéreos. Considero que os elementos sonoros que constituem esses espaços, são naturais e culturais. Portanto, ligados à natureza geográfica e ambiental, ao trabalho, às tecnologias, à fala, língua e linguagem, às músicas escutadas e produzidas.

Você é autor do livro “Walter Smetak: O Alquimista dos Sons“, que integra a Coleção Signos/Música (Ed. Perspectiva). Podemos entender que sua inclinação a construir os capacetes como dispositivos de escuta tem alguma coisa a ver com seu interesse pelo trabalho do suíço-brasileiro?

Sim, sem dúvida! Em um dos manuscritos, Smetak fala do que seriam as Plásticas Sonoras Silenciosas. Formas tridimensionais diante das quais abstrairíamos uma quarta dimensão que seria o som. Para além dessa ideia smetakiana, adiciono a lembrança de um livro do Henry Corbin em que ele se referia a um profeta sufi, que diz ter abdicado da música quando entendeu que ela residia no silêncio. No caso dos capacetes como dispositivos, a música está na escuta, criam uma superfície topográfica textural que delineiam os sons do ambiente nas escutas de cada veste das orelhas.

Clique na imagem para ler "Walter Smetak: a máquina do silêncio"

Clique na imagem para ler “Walter Smetak: a máquina do silêncio”

Como estudante, sua trajetória acadêmica, da graduação à pós, se deu na Unicamp. Mas você foi da Música-Composição à Educação, passando por Multimeios. O que esse caminho diz sobre as perguntas que desenvolveu na universidade?

Quando terminei o curso de composição musical, eu estava interessado em transpor os limites das áreas específicas, me interessava na música o que estava para além dela, me interessava nas artes visuais o que estava para além dela, me interessava pelos entres. Por isso ingressei no mestrado em Multimeios, pois queria investigar a obra do Smetak e, para mim, ele era um visionário de uma multimídia desplugada. O doutorado na Educação se deu porque me interessava o trabalho do grupo Olho, que na época era coordenado pelo Milton José de Almeida. Lá se pesquisava e estudava alquimia, sufismo e outras correntes do pensamento que foram suplantadas pelas correntes que se tornaram as hegemônicas e que serviram como estruturadoras desse mundo construído, desde então. A isso aliava-se uma perspectiva menos pedagogizante da relação entre arte e educação. Penso que todo artista é, de alguma forma, um educador e isso nada tem a ver com a pedagogização da arte para que ela caiba na escola.

“O próprio nome Música deveria ser pensado como Artes do Som, Artes Sonoras.”

Agora você é professor do Departamento de Métodos e Técnicas de Ensino da Faculdade de Educação da UFMG. Que contribuição as questões em torno do sonoro podem oferecer para se enfrentar os desafios educacionais?

Essa é uma boa pergunta mas não é tão simples de responder, vou tentar colocando algumas questões com as quais me deparo a cada momento em que estou em aula. Em primeiro lugar, acho que a educação musical, como campo, se distanciou da própria música para se efetuar e se legitimar como uma área que produz conhecimentos próprios. Há algo endógeno nesse processo de consolidação como campo. Emula-se um conhecimento específico, intrínseco à área. A educação musical discute a educação musical e, muitas vezes, a música passa ao largo disso, pelo menos no que se refere às formas de se fazer música atuais, os modos de se organizar em torno do sonoro. Em muitos casos há ainda um reducionismo ao se pensar a educação musical como uma série de atividades infalíveis para o processo de musicalização, seja numa aula, em um curso, ou um percurso. O paradigma ainda é o de que uma certa música normatiza o que é a musicalidade, e que a música atua e melhora o indivíduo para a apreensão de outras disciplinas, ou coisa que valha.

Agora, se pensarmos que fazer música é parte de um processo sociocultural ligado aos sons, sua organização e interação, e ligado também ao momento histórico, geográfico, em que esse processo se dá, e em meio a outros tantos vetores, como características do grupo, contexto, sua forma de interação, e fruição simbólica, condições materiais e repertórios, penso que o próprio nome Música deveria ser pensado como Artes do Som, Artes Sonoras. Isso porque reflete de uma maneira mais abrangente, mais inclusiva, tudo aquilo o que se relaciona com a produção sonora humana. Dito isso, penso que a escuta deve ser valorizada como uma maneira de se estar, inquirir e investigar o mundo, e as relações que se estabelecem e se desdobram a partir dela, sejam produções materiais, simbólicas, efêmeras, interacionais, devem estar no centro do processo educacional.

 

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Atualizando o Lattes

doutorado poa 2014

O ano que passou foi de muito trabalho entre quatro paredes. Isso explica a ausência de posts durante quase todo o segundo semestre. Para começar 2015, nada como atualizar o Currículo Lattes e, de quebra, o perfil aqui do blog. Agora estão lincados vários artigos produzidos nos últimos anos. Ao trabalho!

 

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