Leituras, Pesquisa

Um dia de cada vez

 

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Traduzi e adaptei um pouco às minhas necessidades os onze mandamentos que Henry Miller listou para o biênio 1932-1933, quando estava escrevendo o que seria seu primeiro romance publicado, “Trópico de Câncer”. Eles vêm bem a calhar quando se está começando o terceiro ano do doutorado, em que temos que começar a resumir as explorações teórico-metodológicas para entrar de vez a campo, e escreverescreverescrever.

Tenho escrito muito menos sobre a investigação aqui no blog do que o fiz durante o mestrado. Por outro lado, praticamente toda a tagarelice é absorvida pelos ouvidos dos meus colegas de turma na Comunicação da UNISINOS – e eu os agradeço muito por isso! Além dos papos cara-a-cara, desde outubro do ano passado várias versões do projeto de pesquisa têm andando pelas mãos de leitores de confiança, que têm me retornado dúvidas e críticas fundamentais.

Quando recebo os comentários, refaço o texto e já envio para outro pequeno grupo de amigos da pós-graduação, ex-professores e pesquisadores interessados no tema. Isso tem feito com que eu tenha cada vez menos apego a cada versão do projeto, me atendo principalmente aos pontos fortes ou fracos. O melhor de tudo nem é que o projeto esteja se tornando mais compreensível para os outros e mais consistente para encarar a banca de Qualificação, daqui a alguns meses. O essencial é perceber que eu mesma estou pensando mais claramente!

“Você precisa de um círculo de pessoas que (…) reagirá adequadamente à etapa em que seu trabalho está.” (Howard Becker)

Como está claro, não inventei nada disso. Estou apenas tentando seguir a dica do sociólogo Howard Becker, que descreve toda essa dinâmica em seu livro “Truques da escrita”.

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Para ele, “o ato de escrever pode moldar seu plano de pesquisa”. O que posso dizer é que, pelo menos aqui, parece estar funcionando. Não interessa se passei os últimos meses mergulhada em filosofia ou em teorias bem densas: o estilo carismático e sem frescura de Becker, com foco nos desdobramentos mais práticos e imediatos do fazer científico, é um convite – e um roteiro! – para desatar os nós que atravancam a pesquisa.

Há outros motivos para ler Becker, como o fato de ele descender da Escola de Chicago de Robert E. Park. “Casa” do interacionismo simbólico, serviu de modelo para os estudos urbanos em geral e representa um modo de fazer pesquisa pouco preso a ortodoxias metodológicas – e com uma boa pegada antropológica.

Se isso não bastar de cartão de visitas, Becker também empreendeu várias investigações sobre o mundo da arte e da música. Ele mesmo tocou piano em bandas que se apresentavam em clubes noturnos na Chicago do pós-guerra. É um grande fã de música brasileira, de Tom Jobim a Chico Buarque. O site Letras e músicas é o segundo da lista de favoritos em sua página pessoal, só ficando atrás de Jazz Places, com endereços por todos os Estados Unidos.

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O aspecto mundano dos pesquisadores da Escola de Chicago é uma coisa de louco! O próprio Becker contou histórias curiosíssimas
em uma conferência que fez no Brasil em 1990, publicada na revista Mana. Não deixem de ler! Mas agora, com licença, que ainda tenho que praticar um pouco mais de escrita acadêmica hoje.

Caso se interessem pelo livro “Truques da escrita”, aqui está o sumário e um trecho com as primeiras páginas. E boa pesquisa!

 

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Registro

Bate o sino, andarilho…

Vendedor de cavaco chinês em Recife, dezembro de 2015

Passando o Natal em Recife, minha querida amiga Ágatha me envia este presente: o registro da passagem de um vendedor de cavaco-chinês – o cavaquinho, como também se costuma chamar na capital pernambucana. Na Valdemar Neri com a Sideral, Boa Viagem-Setúbal. Sempre grata!

Um feliz 2016 a todos os ouvintes e leitores do Escuta Nova Onda!

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Quando dizer é fazer

era uma vez um rio

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O Parque Linear do Pajeú foi criado pelo Prefeito Municipal de Fortaleza através do Decreto Nº 13.290, de 14 de Janeiro de 2014, considerando…

“…que, nos termos da Lei Federal nº 12.651, de 25 de maio de 2012, art. 3°, inciso IX, alínea c, a implantação de infraestrutura pública destinada a esportes, lazer e atividades educacionais e culturais ao ar livre em áreas urbanas é considerada de interesse social. CONSIDERANDO que a criação e a manutenção de parques, dotando-os de infraestrutura, é indispensável para proporcionar a todos o direito ao meio ambiente equilibrado, nos termos do art. 194, inciso XVII, da Lei Orgânica do Município de Fortaleza. CONSIDERANDO que o Plano Diretor Participativo do Município de Fortaleza (PDPFOR), Lei Complementar nº 062, de 02 de fevereiro de 2009, estabelece, em seu art. 9°, inciso II, como diretriz da política de meio ambiente de Fortaleza: “ampliação, conservação, fiscalização, monitoramento, manejo e gestão democrática dos sistemas ambientais, das áreas verdes…

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Pesquisa

Adeus, Edward Soja

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Soube agora do falecimento de Edward Soja (1940-2015), uma das minhas leituras prediletas nos últimos meses (“Geografias Pós-modernas”). Alimentava a ideia de assistir a uma palestra dele nos próximos anos, mas agora resta ficar na companhia dos seus livros. A leitura de Lefebvre e Foucault acabou me levando à ideia de terceiro espaço de Soja, que leva em consideração o conceito de heterotopia e a concepção triádica do espaço social, com atravessamentos feministas e pós-coloniais.

Professor emérito de Planejamento Urbano na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), ele realizou estudos desde a geografia da modernização no Quênia até a reestruturação urbana de Los Angeles. Nessa trajetória, desenvolveu a noção de pós-metrópole, apresentada em 2000 em Postmetropolis: Critical Studies of Cities and Regions. Um artigo em que aborda algumas ideias gerais do livro – e vai adiante – foi traduzido recentemente para o português, pela Revista UFMG. Uma boa oportunidade de leitura a quem deseja ingressar no pensamento sobre a virada espacial.

 

…e a virada não-humana?

Aproveitando o dia de Santa Cecília, padroeira dos músicos, pergunto: para quem você faz música? O violoncelista David Teie está compondo para gatos. Uma pesquisa de recepção mostrou que 70% dos felinos demonstraram reações positivas à sua obra. Divulguei há pouco um vídeo sobre isso no Facebook e duas amigas disseram que, coincidência ou não, seus gatos vieram para perto da música quando a fizeram tocar no celular ou no computador.

 

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Eventos, Leituras, Pesquisa

“Ouvir o documentário”

Enquanto isso, na pesquisa em audiovisual…

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O Laboratório de Análise Fílmica (LAF), grupo de pesquisa do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA, está lançando “Ouvir o documentário: vozes, música, ruídos”.

O livro é organizado pelos professores José Francisco Serafim e Guilherme Maia e apresenta reflexões sobre aspectos sonoros dos documentários, em artigos escritos por Amaranta Cesar, Ana Rosa Marques, Bill Nichols, Joceny Pinheiro, Márcia Carvalho, Marcius Freire, Rodrigo Carreiro, Sandra Straccialano Coelho, Sérgio Puccini e Tatiana Levin.

A conferir!

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Arte, Leituras, Música, Pesquisa

Mapa como tratado de harmonia

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Mais achados, agora de Villa-Lobos.

“O passado passou. Guarda-se e consulta-se, mas não se revive numa época de evolução alucinante como a nossa.”

“Não escrevo dissonante para ser moderno. De maneira nenhuma. O que escrevo é conseqüência cósmica dos estudos que fiz, da síntese a que cheguei para espelhar uma natureza como a do Brasil. Quando procurei formar a minha cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só poderia chegar a uma conclusão de saber consciente, pesquisando, estudando obras que, à primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil, o Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra. Depois, o caráter dos homens dessa terra. Depois, as maravilhas naturais dessa terra. Prossegui, confrontando esses meus estudos com obras estrangeiras, e procurei um ponto de apoio para firmar o personalismo e a inalterabilidade das minhas ideias.”

“Meu primeiro tratado de harmonia foi o mapa do Brasil.”

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