Eventos, Leituras, Pesquisa

Pensado, escrito, soado

Pedro RebeloAlterações no ambiente sonoro do Complexo da Maré durante a ocupação das chamadas forças de pacificação, esclarecimentos sobre o conceito de escuta evocativa e comentários sobre o atual panorama dos sound studies.

Esses são apenas alguns pontos da conversa que tive por e-mail com Pedro Rebelo, professor visitante da UFRJ, que vem agitando vários projetos interessantes entre Belfast, Rio de Janeiro e Viseu, entre universidade, sala de concerto e espaço público, entre o pensado, o escrito e o soado.

 

O que o levou à arte sonora?

O meu percurso vem essencialmente da música, com uma forte influência da arquitectura. O meu doutoramento na Universidade de Edimburgo foi desenvolvido entre a faculdade de Arquitectura e a de Música, o que me permitiu pesquisar relações entre som e espaço de um ponto de vista interdisciplinar. A arte sonora surge como uma prática em que a escuta é contextualizada e situada, permitindo a criação de lugares que embora temporários (como é normalmente o caso de instalações sonoras) expõem várias formas de nos relacionarmos com o mundo sonoro. A minha prática vai desde a música de câmara, à improvisação livre e instalação, de forma que abrange tanto a música como a arte sonora. Embora a arte sonora tenha recentemente ganho identidade a partir de uma relação com as as artes plásticas, eu vejo as artes sonoras de uma forma abrangente. A música, por exemplo, é uma arte sonora!

E o que o levou à UFRJ?

Desde alguns anos, a relação com alguns professores da UFRJ tem-se vindo a intensificar. Isto num contexto de uma parceria institucional entre a Queen’s University Belfast (onde o Sonic Arts Research Centre está inserido) e a UFRJ. Em 2014, o professor Rodrigo Cicchelli Velloso da Escola de Música, juntamente com o professor Guto Nobrega da Escola de Belas Artes proporcionaram a oportunidade de um período de pesquisa e ensino como professor visitante.

Laboratório do Sonic Arts Research Centre (SARC)

Laboratório do Sonic Arts Research Centre (SARC)

Finalmente, o que o levou ao Complexo da Maré?

Uma outra ligação importante na UFRJ é o trabalho que o professor Samuel Araújo tem vindo a desenvolver no contexto do grupo Musicultura, um laboratório de pesquisa etnomusicológica na Maré. O trabalho do professor Araújo é uma referência internacional na área de pesquisa participativa e inspirador de um ponto de vista social e humano. Quando começamos a preparar o desenvolvimento de um projeto participativo de arte sonora no Rio, a Maré, especificamente o Museu da Maré e a sua ligação ao Musicultura, apresentou-se com situações de acolhimento ideais.

“As metodologias têm uma vertente etnográfica. Outro aspecto é a partilha de estratégias de arte sonora.”

Sounds of the City - Belfast

Sounds of the City – Belfast

O projeto desenvolvido junto aos habitantes do Complexo da Maré partiu de metodologias desenvolvidas  para o Sounds of the City – Belfast, encomendado pelo Metropolitan Art Centre, para a sua abertura em 2012. O que é o Metropolitan Art Centre e quais são tais metodologias?

O Metropolitan Arts Centre (MAC) é um centro de artes que surgiu em Belfast em 2012 com uma política forte do ponto de vista de abertura à população (incluindo grupos que tradicionalmente têm pouco ou nenhum acesso às artes) e também de engajamento comunitário através do serviço educativo. O projecto Sounds of the City – Belfast foi uma proposta do MAC para desenvolver algo que ligasse a experiência de engajamento comunitário de uma equipa que precede a criação do centro e a pesquisa desenvolvida no Sonic Arts Research Centre, onde sou professor.

As metodologias desenvolvidas para este projeto têm uma vertente etnográfica em que um grupo de participantes cria um vocabulário que nos permite falar da vida cotidiana através do som. Um outro aspecto metodológico é relacionado à partilha de estratégias de arte sonora (desde a gravação de campo até formas expositoras de trabalhar com o som). Os aspectos colaborativo e participativo do projeto são apontados como forma de garantir um nível de autoria pelos próprios habitantes e moradores, no intuito de contribuir para a celebração da cultura local.

“Um dos pontos importantes a frisar é a diluição do conceito de eles e nós.”

Kombi "Som da Maré"

Kombi “Som da Maré”

Partindo da questão da autoria: o que eles criam, por meio do projeto?

Um dos pontos importantes a frisar é a diluição do conceito de eles e nós. No Som da Maré participaram alunos da pós-graduação da UFRJ (de música, arquitectura, belas artes, design, comunicação etc…), tal como um grupo de bolsistas do Museu da Maré e suas famílias. Todos estes indivíduos têm experiências, motivações e conhecimentos distintos. A estrutura horizontal do projeto tem como principal ambição intensificar a colaboração num grupo de pessoas que normalmente não trabalhariam juntas.A criação, neste contexto não segue moldes tradicionais de produção cultural, nem de autoria, mas permite uma certa abertura em termos de geração de ideias e de conteúdos.

Um exemplo do projeto pode ajudar a ilustrar este tipo de relação. Um dos temas que surgiu coletivamente desde o início, do ponto de vista de articular uma experiência do dia a dia de lugar através do som, foi a chuva. A chuva como um experiência positiva associada a banhos de chuva no verão mas também a uma precariedade, quando a chuva entra em casa e se torna necessário proteger a família. Neste caso, a chuva como tema esteve presente desde o início e foi desta forma criação do grupo de participantes.

A forma de articular este tema no contexto da exposição e passeio sonoro tem a haver com a segunda parte da metodologia descrita acima em que estratégias de artes sonoras são exploradas com o objectivo de identificar a forma mais eficaz ou evocativa de comunicar um tema particular a um público que vai além dos participantes. Este exemplo mais conceptual é contrastado com casos em que gravações de campo feitas pelos participantes são diretamente utilizadas no passeio sonoro como momentos que retratam ligações pessoais entre som e cotidiano.

 

Como foi a receptividade dos participantes?

Segundo conversas informais, entrevistas e depoimentos, o projeto foi extremamente bem recebido. Os participantes identificaram o trabalho de memória e as componentes práticas (por exemplo, gravação de campo) como aspetos positivos do projeto; isto do ponto de vista de algo que pode ter desdobramentos além da duração do projeto.

O que você descobriu de especial sobre a Maré, a partir de sua dimensão sonora?

O som tornou-se um veículo para melhor conhecer o dia a dia dos participantes. Um dos aspetos que se tornou evidente foi a quantidade de memórias e reflexões que são comuns a vários tipos de vida e não necessariamente específicos a uma comunidade (por exemplo, banhos de chuva ou brincadeiras de rua).

Pessoalmente, houve para mim um momento importante que foi articulado dramaticamente por uma alteração na paisagem sonora. A militarização da Maré, nos finais de março de 2014, transformou (embora apenas momentaneamente) os níveis de projeção sonora pelas ruas. O hábito de utilizar sistemas sonoros em público a tocar diversos estilos de música na rua foi abandonado por alguns dias. Segundo alguns participantes que notaram esta mudança no ambiente sonoro, esta alteração de comportamento tem a haver com o não saber se tais atividades seriam aceites ou legais em uma Maré militarizada. Passados um ou dois meses presenciei cada vez mais música a voltar às ruas…

“A militarização da Maré transformou os níveis de projeção sonora pelas ruas.”

Som da Maré

Que desdobramentos você espera do projeto?

A continuação no desenvolvimento das metodologias utilizadas é importante para mim do ponto de vista de criar situações participativas eficazes nas artes sonoras. Vou publicar os aspetos mais teóricos do projeto para que esta vivência se torne num contributo a nível académico e se relacione com outros trabalhos na área. É importante que o projeto não se torne demasiadamente itinerante de forma a perder uma ética de engajamento local. Ele nasceu em Belfast, a cidade onde vivo e trabalho, veio para o Rio, uma cidade com que tenho imensas afinidades e onde vivi seis meses para trabalhar no projeto. Um coisa que gostava e espero poder fazer em breve é levar este tipo de projeto à minha cidade natal, Viseu em Portugal.

Invisible Places- Sounding Cities - Cartaz

A propósito, Viseu atraiu agora em julho a atenção dos pesquisadores na área dos sound studies, por ter realizado o Invisible Places – Sounding Cities. O que você sentiu nesse retorno à sua cidade natal, sendo ela a “sounding city” do evento?

Foi um prazer imenso ver e ouvir Viseu de uma forma diferente e voltar a casa neste contexto profissional. A oportunidade de fazer uma obra pública numa rua onde eu cresci foi um privilégio em termos de reviver memórias e do relacionamento com as pessoas. O evento foi extremamente bem sucedido e serviu de confirmação que se podem organizar eventos de pesquisa de qualidade fora dos centros institucionais.

Pedro Rebelo, Raquel Castro – mais alguém? Viseu parece ter um grupo interessante de pessoas pensando o entorno sonoro. A que se deve isso?

Tanto eu como a Raquel saímos de Viseu há bastante tempo e houve felizmente este ano uma oportunidade de trazermos os nossos interesses para nossa cidade natal. O que facilitou a concentração de energias à volta do som este ano foi uma parceria com o evento Jardins Efémeros. Os Jardins têm um carácter transformador a nível urbano e social. A programação, que vai da música às artes plásticas e arquitectura, consegue transformar a dinâmica da cidade, em especial do centro histórico. O Invisible Places – Sounding Cities aconteceu nesse contexto, o que proporcionou oportunidades únicas do ponto de vista de pensar o som no contexto urbano.

“Um aspeto claramente articulado nestes encontros é a maturidade da identidade dos sound studies, relativamente recente.”

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[galeria completa de Dan Pope]

É possível apontar algo de emergente no panorama dos sound studies, a partir das comunicações, obras, práticas de escuta e do próprio encontro entre participantes do evento? Você percebe algo diferente no campo neste ano de 2014?

Um aspeto que é claramente articulado nestes encontros é, antes de mais, a maturidade da identidade dos sound studies, que é relativamente recente. Além disso acho que se tem avançado imenso do ponto de vista de práticas artísticas centradas na escuta. Estou a falar de práticas que vão para além da composição musical em termos de método e abordam influências das artes plásticas e performance, mas também dos referenciais teóricos presentes na área do som. Acho a naturalidade como estas práticas estão a surgir, com formas naturais e orgânicas de relacionar várias influências, muito excitante.

Sua participação no Invisible Places – Sounding Cities se deu também pela intervenção urbana MESAS. O que acontecia ali, quando as pessoas passavam por baixo das mesas suspensas sobre a Rua Direita? Há algum feedback que gostaria de compartilhar?

O projeto MESAS em colaboração com o Ricardo Jacinto foi um desafio da Raquel Castro e Sandra Oliveira (diretora dos Jardins Efémeros) que me pediram para propor um projeto de arte sonora em espaço público; neste caso no centro histórico de Viseu. A relação entre objectos do cotidiano e o som é algo que me interessa, tal como formas diferentes de olhar para estes objetos do dia a dia. Assim sendo, o projeto pega em vários tipos de mesas provenientes da rua onde a obra é instalada e suspende os objetos de forma a que a circulação de pessoas é feita por baixo destes. Existe um trabalho de etnografia sonora a partir destes objectos. Cada mesa é doada ao projeto por um indivíduo ou grupo e essas histórias, tal como os ambientes sonoros das próprias mesas, compõem o universo acústico do trabalho. Objectos que ocupam normalmente um ambiente interior e muitas vezes privado (mesa de ourives, mesas de escola ou de jogo) tornam-se públicos, expostos no exterior e projetam materiais sonoros que lhe dizem respeito.

“Esta noção de escuta evocativa assume que a escuta é condicionada às relações sociais do dia-a-dia.”

MESAS: intervenção urbana de Pedro Rebelo & Ricardo Jacinto

MESAS: intervenção urbana de Pedro Rebelo & Ricardo Jacinto

A instalação me parece concebida a partir da ideia de escuta evocativa (evocative listening), que se aplicaria a obras artísticas (arte sonora) e sobre a qual você escreveu em parceria com Rui Chaves em 2012, para o periódico Organized Sound. Pode nos esclarecer mais sobre esse conceito?

A noção de escuta evocativa tenta reunir vários conceitos que têm como base o relacionamento social e a situação de lugar. Ela parte do princípio que o espaço de escuta é múltiplo e que as condições de escuta vão para além da relação sujeito-objecto. O evocativo aparece assim como uma forma de articular o cotidiano, através de por exemplo uma inversão de relações (privado-público, interior-exterior) ou de transformações do background em foreground. Esta noção também assume que a escuta é condicionada às relações sociais do dia-a-dia.

No projeto MESAS, por exemplo, o fato de se ouvirem vozes que pertencem a pessoas que habitam aquela rua cria uma relação de escuta específica, para estas pessoas mas também para a forma como elas se relacionam com outras através do fato da voz delas estar momentariamente projetada em espaço público.

Que outros artigos seus nos indica à leitura?

Como sempre, acho que o próximo vai ser o mais interessante!!! Estou neste momento a trabalhar num capítulo em colaboração com o Professor Rodrigo Cicchelli Velloso, da UFRJ, que vai abordar as questões exploradas no projeto Som da Maré. Relações escuta-local são abordadas num artigo recente no International Journal of Mobile Human Computer Interaction, intitulado “Belfast Soundwalks: Experiences in Sound and Place through Locative Media”.  Trabalhos noutras áreas incluem pesquisa no campo da notação musical (Rebelo, Pedro (2010) “Notating the Unpredictable” Contemporary Music Review 29, no. 1 (2010): 17 – 27) especificamente a sua relação com a composição e improvisação e no campo da performance em rede (Rebelo, Pedro (2009) “Dramaturgy in the Network,” Contemporary Music Review 28, no. 4 (2009): 387).

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Caminhada sonora em Porto Alegre

Como choveu na celebração do Dia Mundial da Escuta 2014 em Porto Alegre, semana passada, estamos cumprindo o que prometemos: retomar a Caminhada Sonora daquele dia. Agora com o céu limpo desta sexta-feira, dia 25 de julho. A previsão é excelente: uma magnífica tarde de inverno.

Encontraremo-nos diante do Theatro São Pedro às 14 horas e terminaremos à beira do Guaíba, na estação hidroviária. Não sem antes passarmos por altos e baixos. Confira o percurso:

• Theatro São Pedro
• Viaduto Otávio Rocha
• Esquina Democrática
• Largo Glênio Peres
• Mercado Público
• Acessos subterrâneos Trensurb e CatSul
• Estação de embarque do catamarã Porto Alegre-Guaíba*

(* Sugere-se finalizar a atividade seguindo em travessia pelo Guaíba. Valor ida e volta: R$ 14,70. Intervalo estimado: 1h.)

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Soundwalking: algumas dicas de Hildegard Westerkamp!

“Uma caminhada sonora é qualquer excursão cujo principal propósito é escutar o ambiente. É expor nossos ouvidos a cada som ao nosso redor, não interessa onde estejamos. Podemos estar em casa, podemos estar atravessando uma rua no centro da cidade, por um parque, ao longo da praia; podemos estar sentados no consultório médico, no saguão de um hotel, num banco; podemos estar fazendo compras em um supermercado, numa loja de departamentos, ou num mercadinho chinês; podemos estar no aeroporto, na estação de trem, no ponto de ônibus. Por onde formos, daremos aos nossos ouvidos prioridade.”

“Nossa primeira caminhada sonora é, assim, expor propositadamente ouvintes ao total conteúdo da composição de seu meio ambiente, e é, portanto, muito analítica.”

Hildegard Westerkamp - Foto: Peter Grant

Hildegard Westerkamp – Foto: Peter Grant

“Uma caminhada sonora pode ser projetada de várias diferentes maneiras. Ela pode ser feita sozinho ou com um amigo (no último caso, a experiência de escuta é mais intensa e pode ser bastante divertida quando uma das pessoas usa uma venda nos olhos e é guiada pela outra). Também pode ser feita em pequenos grupos, caso em que é sempre interessante explorar a interação entre a escuta de grupo e a escuta individual, alternando entre andar a distância e caminhar bem no meio do grupo. Uma caminhada sonora pode ainda cobrir uma grande área ou pode apenas se centrar em torno de um lugar em particular. Não importa a forma que a caminhada sonora toma, seu foco é redescobrir e reativar nosso sentido de escutar.” (Fonte: “Soundwalking”)

Aproveitando para fazer gravação de campo

Alguns de nós levaremos gravadores de áudio, smartphones com aplicativos de gravação e câmeras fotográficas e/ou de vídeo, mas o essencial é caminhar conscientes do som ao redor.

Confirme presença no evento pelo Facebook.

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Dia de escutar

Cartaz Dia Mundial da Escuta POA 2014
Nesta quinta-feira, 17 de julho, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) participa do Dia Mundial da Escuta, com uma programação centrada na Sala dos Sons e aberta ao público interessado em celebrar práticas de ouvir o mundo ao seu redor. É a primeira vez que a Universidade integra as atividades deste evento. Desde 2010, ele acontece anualmente em várias cidades do mundo, lembrando o aniversário do escritor e compositor canadense R. Murray Schafer, autor de “A afinação do mundo” e do conceito de paisagem sonora.
 
A partir das 14 horas, sairá da Sala dos Sons uma caminhada sonora para apreciação do ambiente acústico de Porto Alegre e gravações de campo. Às 20 horas, no mesmo local, acontece um concerto com obras relacionadas a paisagens sonoras e modos de escuta, de compositores do Brasil (Rafael de Oliveira, Lilian Nakahodo), Estados Unidos (Ernst Karel), Espanha (Joan Riera Robuste), entre outros.
 
Com o tema “Escute a si”, em 2014 o Dia Mundial da Escuta pretende colocar as seguintes questões em pauta: como nos fazemos ouvir pelos outros? Como escutamos e o que escutamos quando desejamos não ser vistos? Como os sons que produzimos se adaptam ao ambiente que nos rodeia? O que seria uma “ética da escuta”, e como tal ética se aplicaria particularmente a compreender a relação entre os seres humanos e outras criaturas vivas?
 
A iniciativa é do World Listening Project (WLP) e da Midwest Society for Acoustic Ecology (MSAE). Em Porto Alegre, as atividades estão sediadas na Sala dos Sons, que se encontra no segundo andar do prédio da Reitoria da UFRGS (Av. Paulo Gama, 110 – Campus Centro) e conta com equipamento de projeção sonora de alta-fidelidade. O espaço foi projetado para difusão da obra de compositores contemporâneos por meio de apresentações públicas e gratuitas, além de servir de laboratório para a realização dos projetos musicais dos estudantes dos Cursos de Graduação e Pós-graduação em Composição Musical.
 
Mais informações nos sites http://escutanovaonda.wordpress.com e http://musicaeletronicaufrgs.wordpress.com. Em caso de chuva, a caminhada sonora será realizada em data a ser divulgada nesses canais.
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“Guerra entre ruído y nada”

“Olá, boa noite. Obrigada por vir. Bom, é um prazer estar aqui. Vamos arrancar com um pouco de City Zen.

O disco City Zen começa com um som de bonde, de ônibus, e com uma frase muito simples, que é um pouco um leitmotiv de todo o disco. Diz assim:

É uma guerra entre ruído e nada… É uma guerra entre ruído e nada… City Zen… City Zen…

Assim arranca este bonde!”

Kevin Johansen

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Sons rurais em residência artística

Gravando em Porto Alegre - Foto: Fernando Perales

Foto: Fernando Perales

Falo tanto de cidade que fiquei especialmente curiosa quando soube que o artista sonoro e músico improvisador Marcelo Armani estava rumando ao interior do Estado de São Paulo para uma residência artística, a fim de explorar o ambiente sonoro rural de São José do Barreiro. Compartilho com vocês o que ele gentilmente compartilhou comigo sobre sua participação no rural.scapes – laboratório em residência, programa com ênfase na pesquisa, articulação, reflexão e práticas transdisciplinares artísticas e produção crítica no ambiente do campo. O resultado será exposto no Paço das Artes, em São Paulo, em junho.

Considerem que minhas perguntas foram feitas quando Armani estava no curso do trabalho, e as respostas foram sendo respondidas aos poucos e concluídas quando ele voltou da experiência. Portanto podemos conferir alguns aspectos importantes de seu processo criativo no encontro com novas pessoas e novos lugares. Aí vamos!

 

Você já tinha ideias para o ambiente rural, ou a chamada te estimulou a criar algo?

Nasci no interior do Rio Grande do Sul e vivi uma parte de minha infância, por volta de um ano, no meio rural. Durante esse período frequentei uma escola rural também. Após isso, meus pais se mudaram para a região metropolitana de Porto Alegre. De alguma maneira, a paisagem sonora do ambiente rural me é familiar e vivenciar essa experiência é como acessar uma parte desse registro da infância. Porém os costumes, sotaques e alguns aspectos naturais são bem distintos de um lugar para o outro.

Aqui [na residência] encontrei outras conexões com os registros que possuo e esses fatores muitas vezes são amplificados através do processo de imersão que há em um programa de residência artística. Dessa maneira, projetos e ações se desenvolveram empiricamente. De uma forma mais natural e por processos experimentais. Por isso não me preocupei em ter um projeto já fechado e tal. Prefiro seguir por essa linha que envolve processos de site specific, arte in situ, intervenções, ocupações e ações performáticas.

Do que se trata sua participação?

O meu projeto se enquadra em técnicas e procedimentos que seguem a linha de pesquisa e de discussão presente na arte sonora, mas passando por linguagens e elementos das artes plásticas. Basicamente, o trabalho é realizar registros da paisagem sonora local com a utilização de diferentes equipamentos de captação, atuando na composição de texturas ou intenções eletroacústicas que posteriormente serão utilizadas como matéria prima para intervenções sonoras no ambiente externo. O resultado dessas ações será organizado e exposto no Paço das Artes, em São Paulo, durante o mês de junho, mas também pode ser acessado através do site do projeto.

“Projetos e ações se desenvolveram empiricamente.”

Microfone de contato captando fluxo da cachoeira de São Isidrio, na Serra da Bocaina (São José do Barreiro-SP)

Quantas pessoas fazem parte da residência e qual o perfil delas? São artistas, pesquisadores?

Foram selecionados 12 artistas, dos quais quatro desses são brasileiros e os outros oito são de outros países da America Latina, África e Europa. Dentre esses artistas, muitos são pesquisadores e professores de universidades, atuando em linguagens que passam pela pintura, desenho, fotografia, escultura a mídias tecnológicas e processos autossustentáveis.

Que tipo de trocas interessantes poderia destacar?

Tudo fluiu de uma maneira bastante natural. Alguns aspectos arquitetônicos chamaram a minha atenção e, a partir desse ponto, algumas ações foram realizadas, gerando trabalhos locais cujo diálogo se estabelecia diretamente com essa estrutura, como é o caso de “à capela”.

Clique na imagem para ouvir a peça sonora "à capela", de Marcelo Armani

Clique na imagem para ouvir a peça sonora “à capela”, de Marcelo Armani

A convivência com os demais artistas em residência era a melhor possível. Fazíamos parte de uma família e parecia que nos conhecíamos há mais tempo. E foi dessa atmosfera que passamos a articular e entrecruzar alguns projetos. Posso destacar uma performance que realizei na praça pública de São José do Barreiro com o artista e tecelão Alexandre Heberte, unindo a prática do tear com a arte sonora. Basicamente instalamos um microfone de contato no tear e os sons e ruídos do processo de tecelagem eram assim captados e enviados a equipamentos de efeito e sampler para manipulação do áudio original e reproduzido no ambiente por autofalantes dispostos na praça.

“Esse processo amplifica os sons da mente humana.”

Essa foi uma troca que me interessou muito, pois constantemente minhas pesquisas no campo sonoro e musical avançam mais e mais sobre essa experiência de reconfigurar uma máquina ou objeto sobre a ótica de “instrumentos musicais em suspensão”, explorando dentre esse manuseio uma série de elementos presentes no universo rítmico, atonal e cacofônico, mas também esse processo amplifica os sons da mente humana em seus processos fabris, em seu cotidiano, em suas passagens de lá pra cá articulando silenciosamente um concerto em uma orquestra de desconhecidos.

Que questões de fundo motivam o trabalho?

Primeiramente minha percepção é ativada pelos sons do entorno sonoro que há nesse local tão distante do meio urbano ao qual estamos acostumados. Esse local é um espaço no qual o tempo praticamente é lentamente soprado. Por isso muitas das primeiras captações apresentam o vento como um elemento que ativa determinados processos. Entretanto, alguns dos meus motivos com esse projeto é provocar nos ouvintes a percepção da presença sonora existente em objetos, em imagens. Um mapeamento muito sutil de sons e ruídos, muitos desses imperceptíveis a nossa atenção, e que acontecem ou que dependem de uma ação para que ocorram como é o caso de “Concerto para Cocho”.

Clique na imagem para ouvir a peça sonora "Concerto para Cocho", de Marcelo Armani

Clique na imagem para ouvir a peça sonora “Concerto para Cocho”, de Marcelo Armani

Essa minha relação com o entorno sonoro, com elementos ditos “não musicais” já decorre de outros trabalhos como em “tranS(obre)por”, no qual o espaço urbano é encarado como uma orquestra. [ATUALIZAÇÃO: no dia seguinte à publicação do post, este trabalho de Armani apareceu entre os selecionados Rumos Itaú Cultural 2013-2014; o projeto envolve oficinas, seminários, encontros e similares; além de pesquisa e residência.] Esse é um caminho praticamente interminável e que me fascina imensamente. Processos vibratórios em objetos. Sons e ruídos imperceptíveis que requerem uma pausa longa ou um mergulho mais profundo de nossas percepções. O som como um agente de ligação entre o meio visual e plástico que estabeleça uma relação direta com esse, aprofundando e amplificando questionamentos sócio econômicos, culturais e antropológicos.

Como tem sido a experiência de gravação de campo no campo? Em que se desdobrarão as gravações?

Essa experiência foi bastante proveitosa e estimulante. Tive a oportunidade de estender algumas das técnicas que tenho pesquisado e pensado. Foi uma oportunidade de conhecer e trocar vivências com outras pessoas, cujos processos acabam sendo muito similares na questão de autogestão e experimentações. Descobri frequências graves fascinantes em uma parte do leito do rio Ribeirão – Santana, que cruzava o local onde estávamos. O estalar dos bambuzais amplificado com microfonação de contato. Lindos registros de um passeio na serra da Bocaina até a Cachoeira São Isidro que me proporcionou eventos sonoros subaquáticos de uma beleza única. Por fim pude realizar uma intervenção sonora na paisagem acústica local com a composição de uma peça feita por sintetizador, efeitos e reproduzida através de nove estruturas formadas por autofalantes fixados na parte superior de bambus com diferentes tamanhos. Pensava que isso seria um contraponto, mas na verdade o que ocorreu foi um diálogo muito interessante entre sons, paisagem e animais que por ali circulavam.

Que tipo de equipamento tem usado, e por que a escolha?

O equipamento que tenho usado para registro é um gravador digital TASCAM DR100-mkII, geralmente tenho utilizado os microfones do próprio gravador, mas também utilizo shotguns para captações com opções unidirecional e omnidirecional para registros mais específicos ou ampliados. Além desse, também tenho utilizados microfones de contato para registros sônicos de eventos projetados por vibração sejam eles em objetos ou em meios aquáticos. Já nas composições eletroacústicas utilizo um sintetizador microKORG conectado a pedais de efeito e um sampler.

Precisas de assistência na hora da gravação?

Não solicito assistência durante esses processos. Bem, na verdade prefiro fazê-lo sozinho, pois dessa maneira me sinto mais livre para mergulhar no ambiente.

 

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Pesquisa

Procurando encrenca: e achando!

Foto: Atílio Alencar

Foto: Atílio Alencar

Chegadinho do Rio Grande do Sul: ele apareceu!

Chama-se encrenca e é vendido pelo Seu Tarzan, nas ruas de Cachoeira do Sul. Bianca Breyer, colega de mestrado no PROPUR, já havia me alertado há alguns anos sobre a encrenca, mas acreditávamos ser vendida com matraca, como em Capão da Canoa.

Eis que, agora, Atílio Alencar surge com esse registro importantíssimo, deixando entrever – e quase entreouvir – o uso de um instrumento bem parecido com o triângulo, que vai marcar essas práticas observadas nas regiões Nordeste e Norte do Brasil.

A existência de barquilleros nas ruas de Montevidéu (foto abaixo), portanto num território contíguo ao brasileiro, havia deixado essa interrogação sobre a possibilidade de que a prática de vender esses finos biscoitos em tambores levados às costas, de forma ambulante e ao som agudo de um instrumento como o triângulo, houvesse existido ou ainda existisse também ao Sul do país.

A suspeita agora se confirma! Aguardem relato do Atílio sobre sua experiência com esta doce encrenca abaixo do Trópico de Capricórnio.

Foto: Stonek

Foto: Stonek

 

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